3 de outubro de 2018

A mudança

Não grite que é tarde!


a mudança

Faz hoje um ano estava de olhos abertos, no meu quarto, sentada na cama, a olhar pela janela sem cortinados, a janela ao lado da mesa de cabeceira e que tem uma mínima estante por baixo. Cheia de livros logo na primeira noite. Tinha o telemóvel na mão. A rua vazia. Os milagres dão-se no ecrã - não sei se pelo seu carácter luminoso ou por se escrever neles como uma tábua de Moisés.


Uma mudança é uma forma voluntária, e no meu caso desejada, de violência. Queria vir. Precisava. Procurei incapaz de não encontrar. Encontrei. Tratei de tudo e de mais teria tratado se houvesse para tratar. O que fosse. Mandei pintar, reparar, limpar. Planeei. Tinha uma visão clara. Claríssima. E a luz? que luz por estas janelas dentro voltadas de frente para a vida, e como ela se espalhava, e mais o enfiamento do céu na perfeita rosa nos ventos: era o norte que sonhara. Vi tudo nítido antes. A disposição dos móveis. Até o lugar dos Santos e do grande volume do Caravaggio. A aguarela do Cão. Sei lá eu como. Organizei. Uma das minhas poucas virtudes úteis é esta: organizo com o pensamento com tal ordem e precisão que a materialização é exacta. A internet chegou antes de mim. A casa é ao pé disto e daquilo e da farmácia e do jardim e do supermercado? Sim, é. E há árvores maduras, passeios planos, café e banco. Lavandaria. Livraria. Restaurante. Tem tudo quanto conta. Elevadores. Escolhi bem. Conta? Não conta. O que é isto de desempacotar caixotes de quilos de livros? Preparar o cartão desses mil caixotes para a reciclagem, ter louça sem fim para lavar depois de lavada antes de a empacotar, uma fila interminável para a máquina e nem uma só formiga que nos salve enquanto dormimos - que pena não ser Psiché. Não ter Eros ao pé. Qual Eros... E assim mesmo tudo. Tudo feito. E mais fosse. 


O meu tio tinha morrido. Antes adoecido. Uma tristeza pegada a outra que o sofrimento não tem perdão. E tinha ficado mais dois meses imprevistos. Então, cheguei num dia de calor inesquecível e com o suor e o luto agarrados à pele. Eu própria não estava bem, ainda, e tive tanta ajuda, a minha mãe conduziu o meu carro até aqui, o meu cunhado no Jeep da minha mãe conduziu as manobras com a transportadora e deixou-me um candeeiro provisório montado na cozinha para que eu não tivesse deprimidas lâmpadas penduradas. Estas pequeninas coisas ficam connosco depois das lâmpadas se apagarem. Os livros arrumados na parte de baixo do armário logo inamovível pelo peso das páginas. Foi a minha mãe que me arrumou o Jung ali, alinhadinho. O pensamento pesa que se farta.


À despedida, ao fim da da tarde desse primeiro dia, a minha mãe, como se eu fosse cega, ou ela já a prever, estão aqui as canadianas. E eu as canadianas vão. Foram. Dizemos estas coisas como se o mal e o bem estivessem à distância da palavra que os rejeita ou acolhe. Não estão, pois não?


A véspera do primeiro dia de escola. A bata pronta, a pasta preparada. E a gente de olhos abertos à espera que a noite alquímica nos transforme nesses seres do amanhã que escrevem e lêem. Vivem pelo seu próprio pé. É o mundo à nossa espera - ou nós à espera de viver.


Passou um ano inteiro. É noite outra vez. Há quanto tempo estão já os cortinados na janela do quarto? E não mudou nada: tenho ainda o telemóvel na mão.