10 de junho de 2018

Back in business



Vou-te comer...

Voltei a cozinhar. Pensei que já não sabia e afinal... A verdade é que me apetecia terrivelmente um Kit Kat mas não me parecia que ele se fosse materializar diante de mim. E a outra verdade é que pensei mesmo que já não sabia cozinhar e resolvi confirmar que não sabia. Gosto de cremes. Creme de cogumelos. De feijão. De, sei lá, quase tudo, favas e ervilhas, lentilhas, não. Sempre fui uma grande fã de sopa. De cebola com queijo gratinado. De coentros. Enfim. Fiz creme de feijão. Ficou acetinado, tão bom, adeus kitty - miau.

A minha vontade de cozinhar tinha a vontade de escrever arrumada por junto - claro que nem suspeitei de tal coisa ou já me teria atirado ao fogão, porém quando estava a cortar as cenouras, o texto que quero escrever, e há que tempos interrompido, zás, veio inteirinho, o caminho aberto, ai que alívio, já me tinha conformado a um poema quando fosse e prosa adeus. Que alívio.

Fiz a sopa, para a passar, estreei a belíssima varinha mágica que comprei quando me mudei, a seguir liquidificadora para ficar macia. Tenho ali uma centrifugadora à espera de existir. E mais belas adormecidas há meses e meses. Depois, e enquanto revia Crasy Stupid Love, arrumei a cozinha, fiz uma máquina de roupa, pu-la na secadora, dobrei-a e cesto da roupa por passar. Sou organizada. Da secretária às gavetas. Das contas à posição das almofadas. Tenho mais do que o gosto, a satisfação da ordem. Como Psyche, temos de separar diferentes tipos de grãos numa só noite, não é? E recolher fios do velo de ouro e colher água da alta nascente e pedir a Perséfone o sono perdido. Separar os grãos sempre me foi fácil. Dormir sempre me foi difícil. Entre uma coisa e outra hão-de ter estado os verbos cozinhar e escrever. Nada é possível sem ajuda. Das formigas. De uma voz. Das águias. De Perséfone. Crasy Stupid Love é uma comédia romântica até para quem não gosta de comédias românticas. Somos todos um bocadinho Cal Weaver. O que nos salva é este gémeo obscuro, Jacob, que nos obriga a jogar os ténis fora e a voltar aos saltos altos - ou ao slim cut, quando se é do género masculino. A voltar a cozinhar. Integrar estes dois princípios é mais uma tarefa, então, são cinco as tarefas de Psyche. Bendito seja o sunday rest. E o tio Auden.

No outro dia, no ginásio, estava a pensar, nunca mais vou conseguir voltar andar de bicicleta. Hoje, quase aposto, pensei mal.

Creme de Feijão

1 batata doce grande
2 cebolas grandes
3 dentes de alho
4 cenouras médias
1 pedaço de abóbora
1 lata de feijão encarnado
1 linguiça
1 costeleta do cachaço
1 dose de caldo de carne - caseiro ou de compra
sal
Coza a linguiça com a costeleta do cachaço em água e sal. Retire as carnes. Reserve. Reserve a água. Quando esfriar, retire a película de gordura. Corte os legumes em pedaços de tamanho homogéneo e coza na água reservada já limpa da gordura das carnes - acrescente mais água e sal. Quando os legumes estiverem quase cozidos jogue o feijão e deixe fervinhar - não há problema nenhum em usar feijão de frasco, já cozido, se não tiver demolhado, eu usei e ficou bem. Desligue o lume. Passe tudo com a varinha. Depois de bem passado, jogue na liquidificadora para ficar sedoso. Se gostar da sopa com azeite, acrescente - mas não faz falta pois usou a água onde cozeu as carnes. Sirva com rodelas de linguiça e carne desfiada. Ou com ovo escalfado. Ou com um fio de crème fraîche. Se sobrar um monte de sopa, congele. Boa? Depois dou-lhe a receita do meu caldo de carne. Faz um panelão, reduz, e congela em doses individuais.