29 de maio de 2018

Manual de Instruções

MANUAL DE INSTRUÇÕES

Tal como a vida, a poesia. Ou nos faz ou nos desfaz.
Há um momento. É a chave. É quando, qualquer que seja o tu,
desassossego, diferença - pior que doença - medo,
sete vezes o meu tamanho, investes contra mim,
e de espada e lança e escudo e mesmo
assim, porque sigo o manual de instruções,
também eu te cortarei a cabeça e a darei
por alimento às aves do céu e aos bichos da terra:
podes ser vítima ou podes ser vitória -
não podes ser ambas, nem quando sangras.
Tens de ficar de pé, não interessa como,
no tempo do pão amargo, tempo do não,
tempo da devolução do manuscrito não solicitado,
ou do amor não desejado, ou do fracasso inesperado,
contra espada e lança e escudo, a instrução.
Às aves do céu. Aos bichos da terra.
Pensa no poema. Também ele tem de se aguentar
na inteireza do próprio verso, o que tem de o suster
é a flecha apontada ao coração da poesia,
fonte de onde todos somos, taça derramada
a correr frescura, mel, claridade e força obscura. Então,
o poema, tal como a vida, não é uma arte performativa,
não faz malabarismo, nem deita fogo pela boca,
não depende da voz interpretativa, da expressão declamativa,
não precisa de grandes gestos nem de quartetos de cordas.
O poema escreve-se, o poema lê-se, o poema diz-se.
Como a vida, é uma história de solidão contra a aniquilação pela
brancura do papel e o puro buraco branco do ecrã. Isto
e uma Acção de Graças.