27 de outubro de 2017

Uma palavra chega

uma palavra chega

e às vezes, nem sabemos o que nos faz falta até o recebermos, do nada. Um pequenino acto de bondade. Estou a escrever e percebo que ainda estou a pensar em Stig Dagerman. Explico.

Cheguei. O natural cansaço da mudança. Adoecer. Não recuperar bem. O inesperado. Mil e uma coisas para organizar. A placa da cozinha não funciona. O exaustor tem de ser arranjado. A secadora também. Afinal, não, não compensa o arranjo. Tem de vir uma nova. O congelador não tem conserto. Vem outro frigorífico e descubro que previno uma infiltração - nem todo o mal é mau. A cozinha inoperacional durante quase um mês. Uma das bocas da placa nova não funciona. OK. Não vem mal ao mundo. Assistência técnica já na próxima segunda-feira. Estou contente com o papel do passarinhos. O montador é pontual. Prepara as paredes, faz as marcações. Abre os rolos. É papel pintado. Está manchado de cima abaixo. As paredes já estão lixadas e numeradas. Devolver. Reclamar. Esperar. A minha galinha do sal foi-se. Fui comprar outra. Já não fazem, ou, pelo menos, na Bordallo da Guerra Jungueiro não a têm. Guerras perdidas não. Amor aos objectos? Talvez. Também são memória. Trago um ananás para o sal. Mudar. Cabeleireiro, manicure. A seguir à Bordallo, faço mais não sei quantos quilómetros a subir e mais não sei quantos a descer para chegar perto da Igreja de Campo de Ourique. Acertar datas e detalhes. A casa é-me, sempre me foi, o X. O lugar onde. E trabalho em casa. E de repente, diz-me:
o electricista já trabalha connosco há um ano... E sai-me antes que conseguisse fechar a boca:
- preciso que corra tudo bem, já não posso mais. E foi nessa altura que acrescentou:
- sabe, mudei-me para minha casa há quase dois anos. O construtor ainda não mandou fazer algumas das reparações - uma mudança é difícil. E foi só isto. A centelha de bondade. E eu respirei fundo. Uma palavra chega. Foi um consolo. E então Stig Dagerman e o pequeno ensaio "A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer". 

Stig Dagerman, abandonado em bebé pela sua mãe, esperava a cada momento que ela regressasse. Pior. Esperava que ela regressasse em cada carro que passava na rua dos seus avós, com quem vivia, que saísse do carro a correr na sua direcção, de braços abertos, e os fechasse em volta do seu corpo. Nunca aconteceu, claro. Nunca acontece. Em algum momento, e quase sempre no pior, todos fomos abandonados. Alguém nos morreu. Alguém foi embora. Alguém nunca chegou. Em algum momento todos esperámos o milagre do regresso, não interessa de que janela. Stig Dagerman dizia que isso, a falta de consolo, tornava a felicidade impossível. Essa impossibilidade devorou-lhe a vida tanto quanto lhe fez a obra: nada se constrói sem vazio, é preciso que algo não esteja para haver espaço para que algo esteja. É assim. É o copo vazio que contém a água. É a página branca que se enche de letras. É o baldio que dá lugar ao edifício. É sempre o vazio. É uma condição da criação abraçar o vazio, olhar a morte nos olhos e dizer eu sei. Estar só. É uma condição da existência. Tem de se ser feliz mesmo de coração mastigado. Este é o imperativo não circunstancial: apesar de. Porque o sofrimento também é uma condição da existência. 

Quando entrei casa, sentei-me no sofá. Nem música nem televisão. Lá em cima, o vizinho tocava piano e tropeçava no mesmo passo. Insistiu. Falhou. Insistiu. Os miúdos corriam e gritavam, e mais movimento, arrastar, deixar cair, o piano perdeu o pio quando o pai começou a falar com os filhos. Há uma família aqui ao lado e lá em cima. A minha casa tem camadas de silêncio: tout doucement, sans faire de bruit. Depois andei pelas estantes à procura do Dagerman. Nada de "Consolo" nem de "Vestido Vermelho" nem de coisa nenhuma. Talvez tenham ido na virada com tudo resto que só Deus sabe e nunca regressará. Fui até à cozinha, abri a janela, tão bonita a vista à luz da rua, puxei a cadeira para perto do parapeito, estiquei as pernas e fiquei ali na semi-obscuridade, só a existir enquanto bebia um descafeinado. Se calhar a felicidade é isto.


10 de outubro de 2017

O Gato de Schrödinger

O Gato de Schrödinger
Lá fora, a constante de trânsito
num motor único, a obra,
intermitente, ao lado.
Por cima, mais alto, nas copas das árvores,
pássaros conversam noutra língua.
O ouvido, deste campo de vozes,
colhe o que quer. O meu pensa querer a passarada.
O ouvido é como a razão:
não percebe que ao dizer sim está a dizer não.
Trânsito. Obra. Trinado na pontinha das asas:
este é o mundo, sem sim nem não.
Dou um passo para trás.
Observo que me observo observadora.
Enquanto isso, do outro lado da rua,
no penúltimo andar do prédio calcário e branco,
de pano azul, um rasgo de céu claro na mão, a empregada, fardada,
agora limpa o vidro da janela por fora.
Sou esta que vê e esta que escreve.
E estas mãos no teclado são minhas também.
E nada disto que sou eu contém aquilo que também sou,
a fonte comum onde somos juntos, eu e tu, pano e céu e sons.
Mas também não impede que tenha de tomar o antibiótico
e voltar a enfiar-me na cama.

8 de outubro de 2017

Sunday dreams, jardim & black coffee


sunday dreams

Começar por onde? Um passo. Outro. E outro. Assim. Andar e nem saber que se anda.

Tudo é novo à minha volta. Tenho outra vez dois anos e a vida é um lugar grande. Já tinha cafés onde ir, um com e o outro sem sumo de laranja natural, aqui mesmo ao pé da porta. Hoje acrescentei o terceiro. Já percebi que é o meu preferido. É no jardim. E um quarto, de facto, há um quarto: sempre fui de café-café, mas a minha mãe ofereceu-me para casa nova uma Nespresso e lá comprei um saco cheio de Arpeggio e Indriya. No entanto, e porque Deus também é outra mãe, ali ao fundo da minha rua, da minha nova rua, há uma velha loja de café. Café mesmo, em grão, em pó, daquele que se vê e toca e cheira. E cafeteiras. Amanhã passo lá a bisbilhotar tudo que o aroma do café acabado de fazer, a fugir da cozinha, a espalhar-se pela casa, é uma alegria que o dia ganha logo cedo.

Então, um passo atrás do outro, com a senhora do Google Maps a falar-me ao ouvido, lá fui. Era mesmo do outro lado da rua, mal começou a falar, calou-se. Ri-me de mim, claro. Ontem, quando precisei dela para me dizer se saía do túnel pela direita ou pela esquerda, estava muda, e dei por mim em cascos de rolha. O que vale é que os cascos de rolha eram da Lisboa de antes de me ir embora e consegui perceber onde estava - se passei, um dia que tenha sido, a pé por um lugar, não me esqueço dele. E perder-me não me atrapalha, sempre me perdi em todo o lado e nem por isso deixo de ir dar ao sítio certo.

Tinha esta ideia de que, quando regressasse a Lisboa, o meu jardim seria o mesmo que foi o da minha avó quando ela cá viveu, o da Estrela. Não. O meu jardim é o da Gulbenkian. Que saudades. E nem sabia. Todo domingueiro. Calha bem: I'm hangin' out on Monday my Sunday dreams to dry, não é menina Ella?  Gente estendida na relva a dormir, pais e filhos e cadeirinhas a passear por entre os bambus e os papiros encostados ao lago, os patos quá, e nem rasto da quebra de natalidade e da taxa de divórcio.

Antes vi as exposições. Pareceu-me que estava na loja. Ando eu à procura de um tapete e aquele não ia malzinho. E os belos Cães de Fo também marchavam para cima do meu livreiro. Como não trouxe a minha caixa chinesa, a vitrine com secretária portátil e o resto, olha, também não era pior... Gostei de rever o amor centauro de Rubens e o cão, um Cavalier King Charles que lá está com a sua linda dona. Do lado moderno, reencontrei a juventude politizada de Pomar, e uma peça de que gosto tanto, dos anos cinquenta. A modernidade, bem se vê, já tem uns anos valentes.

Mas o tempo avançou e, de repente, já era muita gente. Dei a volta toda e fui beber café ao outro lado. Pus-me eu a ver os bonecos emoldurados quando estes bonecos vivos reproduzem os outros, com cheiro, textura, temperatura, e drama dentro que a gente nem sabe. Do anfiteatro estive a vê-los, ao sol, à sombra, a ler. Os turistas e os lisboetas. E encontrei um cantinho de sombra e verde e água, onde nem a gente sabe onde está. Dois miúdos aí de nove anos, lado a lado, ele loirinho, ela morena, mais que cinematográficos, e sem qualquer adulto vigilante, atiravam pedrinhas à agua. Há mil anos naquele gesto. De certeza, no princípio, também o terei feito, todos o fizemos. Onde está esse que fomos?

Gosto deste silêncio. Como quase não tenho voz, estou afónica outra vez, há simetria entre a voz com que o mundo me fala e voz com que lhe respondo.

7 de outubro de 2017

Péssima estreia, filha, péssima estreia


si tu vois ma mère

A minha televisão é mais inteligente do que eu: queria o Sidney Bechet mas não o tinha trazido na mudança, o pc está com o som esquisito, e ela, toma Sidney Bechet. Salvou-me a vida.

É verdade, mudei-me finalmente. Nem sei como, com tanta coisa junta. O meu tio tão doente e depois tão morto - sim, a morte é uma gradação ascendente antes de ser um ponto final. E o caos da transportadora? Tudo se resolve. Até a morte vem por catálogo, à sala, vestida de agente funerário, facilitar a sobrevivência de quem fica. É só outra transportadora, afinal - não tinha pensado nisto.

Também não sei como, mas em três dias mal medidos e uma viagem pelo meio, tenho uma casa quase em ordem. Melhor. Uma vida quase em ordem, sem pontas soltas, nada por rematar - tive aulas de lavores, aprendíamos a bordar, de bastidor e fio de seda, ou Ponto Cruz ou de Assis. Era muito pequenina. Depois o colégio terminou os lavores, acho que os deram por fascistas e anti-feministas. Ainda não arrumei aqueles papéis obrigatórios nos dossiers, a certificação do gás, a Via Verde, sei lá o que mais.

A minha avó era assim, mas em bom. Dizia Faça-se! apontava, aquilo, fora dali, já não posso ver o raio daquelas cortinas, estão uma vergonha, e apareciam feitas novas cortinas mesmo que fosse só ela a ver a vergonha. Eu não digo Faça-se! Faço, paciência, ou nada acontece. 

Hoje, pela primeira vez, pensei, ainda bem que a minha avó está morta. 

Dos outros, não sei grande coisa. De mim, sei pouco todavia um pouco mais. Para que vivemos, para quem? Acho que é para fazermos o que cá viemos fazer o melhor possível e que a nossa família, e os que amamos, se orgulhem disso e de nós, se não conseguirmos, ao menos que não lhes causemos embaraços.

Aqui estou, neste azul Alasca, sem pontas soltas, nem remates por dar, aula de lavores terminada, tudo feito e nada para mostrar, e por entre o Sidney Bechet, de facto, desde o trânsito parado na ponte que só me ouço a perguntar o título de Chatwin, o que faço eu aqui? E na voz claríssima da minha avó, as palavras do avô Afonso, o avô de Carlos da Maia, péssima estreia, filha, péssima estreia.

1 de outubro de 2017

Um Marlboro, se faz favor

Não há? Então, pode ser um Camel...

Um Marlboro, se faz favor


Não fumo. Mas, na verdade, tenho pena de não fumar. Não tenho uma única tatuagem nem um único piercing, e ainda que pense que não tenho pena de não os ter, na verdade, tenho, ou devo ter...

Tal como 20% da população mundial, tenho alergias. Não tenho asma. Com certas alergias, desencadeio uma asma diabólica que quase sempre passa a toque de Symbicort 320. Hoje, e depois de um desses números asmatiformes de grande aparato, meti-me no carro, capota para baixo, e conduzi até à praia. Fiquei dentro do carro a olhar para o céu do fim de tarde de Outubro como se fora Agosto, a noite a chegar devagarinho e exuberante. Foi então que os vi.

Eram dois grupos. Ou duas famílias. Ou uma. Enfim. Eram duas caravanas. Dentro e fora andavam uns miúdos novos, tatuados com sóis de Maui e mais bonecagem nativa. As respectivas namoradas, ou mulheres, e duas crianças - duas meninas - sem saias de ráfia. Mais as pranchas. Elas, as duas mulheres, sentadas no chão a fumar aquela treta a vapor que não sei como se chama e veio substituir o tabaco.

E pus-me a pensar. Para que raio andei eu a dar cabo da cabeça para arranjar casa em Lisboa? E para quê isto de ter quinhentos copos e mil pratos e quilos infindos de livros? Vou dar algum baile, vou abrir uma biblioteca? Se em vez do carro e da casa, tivesse comprado uma caravana e um portátil, não me andava a consumir com transportadoras de pouco profissionalismo e grande nome no lombo dos contentores... Quem é que, no tempo do Ikea, no mundo descartável em que vivemos e perfeitamente adequado à nossa própria descartabilidade, ainda perde tempo com linhos e iluminação e em transformar uma porcaria de um armário de copa num aparador, só porque sim, porque estava lá na cozinha de uma infância que correu no sentido oposto ao da vida adulta?

Se pudesse, mandava tudo à merda e ia passear com O Cão.