15 de janeiro de 2017

Expresso

Transcrevo abaixo o poema que Nicolau Santos escolheu

A MERDA DA BANDOLETE
Tinha uma bandolete,
fita preta e laço de seda.
Deixava-me a testa livre
e as ideias soltas
para teclar melhor,
sem interrupções
de cabelos ou mãos no rosto:
concentrada, reminiscente, ritmada,
teclava como quem ainda estivesse na aula de ballet:
jeté-coupé-coupé-assemblé-jeté-coupé-coupé-assemblé,
allegro, rápida, direita.

Era tão bonita a merda da bandolete
e partiu-se.
Tinha um amor e perguntei-lhe no dia em que a estreei:
gosta da minha bandolete? Comprei.
E de meu laço gosta?
Muito, puro preto de Rothko.
Foi-se a merda da bandolete
mais a merda do amor tão bom
aliterado ao ouvido com a história da arte
e os exercícios de barra e centro,
tudo jeté de uma penada, coupé, assemblé nunca mais.
Comprei uma bandolete
forrada de seda branco-pérola,
mas nenhum branco de Rothko
me prende o cabelo.
É só a merda duma bandolete.
Se o homem soubesse a falta que faz à mulher,
sentia-se um cabrão dum herói.

in O QUOTIDIANO A SECAR EM VERSO