15 de dezembro de 2016

Postais de Belgrado - ii

Ora, a japonesa na parede, não é japonesa coisa nenhuma, é Nádia Knegevich, para se se ler em português que em Sérvio Nádia é Nada, e isso não é coisa que se diga de uma senhora nem quando ela é Knezevic...
POSTAIS DE BELGRADO - ii
Uma japonesa na parede
Na noite em que cheguei a Belgrado, na curva ao entrar aqui, na Rua Gospodar Jevremova onde agora estou, vi da janela do táxi uma japonesa na parede. Uma cantora. Era tarde e o escuro era muito. Nem uma réstia de lua. Pensei, amanhã venho ver-te, mistério asiático nos balcãs.
Afinal, o amanhã só chegou quase uma semana depois, foi ontem cedo, por volta das oito e pouca gente na rua.
Cedo aqui, pelo menos neste Inverno, quer dizer manhãs claríssimas de transparente luz anilada: o sol, alto e frio demais, não tem garras para o azul ferino e quase branco, sem uma nesga de sombra, a que me habituei.
Estou no centro histórico da cidade, no Dorcol. O prédio é de gaveto e tem duas frentes. A outra é para a Francuska Ulica, a Rua da França. E a menos de duzentos metros, paralela àquela, tenho uma parte do Bairro Alto, a dos restaurantes e bares, que aqui é Skadarlija, e nem por isso me chega o ruído nocturno ao quarto. À mesma distância, mais centímetro menos centímetro, pois é preciso atravessar a rua, o mercado Bajloni.
Na Skadarlija funcionava a grande destilaria da família Bajloni e é por essa proximidade e, claro, a grande influência da família na vida de Belgrado, que o mercado é chamado assim apesar de ter um qualquer nome oficial – e agora vejo que ainda não contei nem como nem porquê foi Gordana Bajloni viver para o Estoril.
No sentido exactamente oposto, nesta cidade em que cada rua sobe e sobe e depois desce e desce, fica o Chiado: é a Knez Mihajlova Ulica, Rua Duque Miguel, portanto. Ora, nem de propósito, este Miguel é sobrinho do Jevrem que dá nome à rua onde, por enquanto, vivo - no tal prédio de gaveto dos anos trinta, altura em arquitectos e engenheiros russos tanto construíram em Belgrado estas casas de pé direito altíssimo, de uma racionalidade modernista exemplar, confortáveis quase um século depois. Esta parte de Belgrado, a que até hoje conheci, o Dorcol, tem a beleza das construções neoclássicas lado a lado com as modernas até ao tutano, e ambas cobertas de anos e falta de cuidado, envelhecendo juntas como amigas de origens tão diferentes quanto a diferença possa ser.
Desta casa do século xix vê-se Nádia do século xxi..
É cedo. Oito, talvez. Atravesso o frio seco com gosto. Faço a rua devagar. Ó que gatarrão! Vem cá bicho brilhante e pesado, tens o dobro do volume do meu querido Cão, que saudades... Percebes português? Percebe. Vem ronronar o seu tamanho todo em oitos bem roçados nas minhas pernas. Turrinhas com a cabeça. Ó Cão...
Depois da Morte no Nilo não precisamos de crime nem no Sava nem no Danúbio. So, let's jazz Mr. Poirot...
Olho em frente e penso, o Poirot da BBC, se fosse da RTS, Rádio Televisão Sérvia, poderia sair por aquela porta: lá em cima, na fachada, um enorme relógio, depois as varandas dos apartamentos, uma com os tapetes ao ar, foge ácaro que congelas, e cá em baixo a Associação de Navegação do Danúbio, mais cinema e sala de espectáculos – olha, jazz às segundas-feiras, está no cartaz por cima da porta de entrada...
Agora sim. Lá está ela, à minha espera apesar do meu atraso.
Olá Madame Nádia, que quer que lhe diga? Se pensei que era japonesa foi só porque não havia nem uma réstia de lua.