2 de dezembro de 2016

Amor Cão



O meu lindo Cão morreu hoje. Este foi o texto que lhe escrevi de aniversário, a 5 de Maio de 2016, para celebrar os seus perfeitos dezasseis anos - na verdade, sabia que era o último aniversário. Sabemos, não é? É assim. É Amor Cão. É para sempre.

O meu lindo Cão...



O meu Cão faz hoje dezasseis anos. Meu querido Cão. Conheci-o tinha ele quatro meses. É o Cão que sempre quis ter. Hoje, lá fora, a chuva e relâmpagos e trovões como se o céu fosse acabar amanhã.


Quando o Cão era novo, e se ele foi até aos doze anos, destemido, rival poderoso de todos os cavalos havidos e por haver, fazia frente aos relâmpagos, e até se empinava para assustar os trovões a latidos. Batia-os todos para longe. Ainda há pouco, caiu um relâmpago tão em cima de nós que nem deu para contar até um antes que o trovão rolasse dele abaixo. E o meu querido Cão, na surdez dos seus dezasseis anos, a comer a sua pescada de aniversário à revelia veterinária, nem um movimento de orelhas. O que eu gastei os píxeis dos olhos a contemplar a maravilha daquelas orelhas-antenas, perscrutadoras, sempre em movimento, rápido ou lento, mesmo enquanto dormia: se algum sonzinho lhe chegasse de fora da orquestra, rosnava baixo, sem mexer um pêlo que não fosse das orelhas, sem descerrar os olhos, era um, estou aqui, nem te atrevas. Nada se atrevia. Ninguém. Quem é maluco de ir contra o Grande Lobo das Estepes Siberianas? Claro, não se adivinhava na fera o Cão Noiva que também foi na juventude, quando ainda vivíamos na nossa casa.
A minha cama era alta. Vá, não era baixa. Quatro vezes a altura do Cão. E isso que interessa a quem tem molas nas patas? De manhã, muito cedo, logo a seguir à Eurovisão dos pássaros na guarda de ferro da varanda, que começava à primeira luz e me dava a primeira felicidade aos ouvidos, depois das aves terem ido à sua vida, sentia-o esticar-se, downward dog, yoga de perfeição, depois enfiava as patas dianteiras até onde chegava na lateral do colchão para outro alongamento. Silencioso. Cão Ninja. E de repente, um impulso apenas, já estava na cama. O focinho enrolado no mosquiteiro, veú-de-noiva, coisa mais natural no mundo canino, estes tules, e eu nunca soube… Imóvel. Cão Estátua. O focinho coberto e apertado pelo mosquiteiro-véu, à frente do meu rosto, as quatro patas de equilíbrio no meu peito, quase nariz com nariz, e eu, bom-dia Cão Noiva, a rir. E logo ele aos saltos na cama. Sessão de festas matinais. Peitinho, barriga-tambor, pescoço, e que lindas patas de ballet tem a minha gata! E ele a esticá-las na sua máxima, na sua impossível extensão de bailarina vaidosa, Svetalana Zakharova dos canídeos! Minha Linda Gata. Gata Boa. Quem gosta de peixe, quem é? Quem faz prodigiosos equilíbrios nas almofadas do sofá e se senta e deita ao lado do computador da sua dona, na secretária, quem é? É a minha gata. Nunca o convenci do seu gene gatini. Era um cão anti-gatos. Um drama dentro da minha imaginação porque os gatarrões são maiores do que ele. Nenhum drama na realidade. Quando o viam, fugiam a velocidades felinas de mato. Agora nem se mexem, os gatos. Descansados da fera cega que passeia lenta, hesitante, a tactear as pedras do passeio. Nem para o sofá sobes, meu querido Cão. Os saltos em altura acabaram há quase três anos. E o degrau da sala da casa onde agora estamos, um muro da tua medida, transpõe-se uma pata de cada vez. Cão Valente. O meu Leão.
Cão Lição. Não vivemos só para nós, pois não, Coração de Cão? Nem quando olhamos em volta e o mundo nos responde que até no sofrimento há beleza sufocada. Vivemos para quem nos ama, não é? Tu vives para mim, maluquete, Cão Amor. Obrigada, meu Lindo Cão.