23 de outubro de 2016

O escaravelho e a via láctea

Às vezes não consigo escrever: a folha põe-se a olhar para mim com uma brancura acusadora e eu, de consciência pesada e sem vontade de acusações e inquirições, fecho-a. E ai dela se protestar, desligo-a. Belos tempos, estes em que escrevemos em folhas ligadas à electricidade. Entre isto e a Siri, já me sinto menos na proto-história da psico-história, meu rico Hari Seldon - a adolescência não há meio de me passar...
De tanto não conseguir escrever, peguei no meu Pamuk, O Museu da Inocência, e sentei-me a ler. Às vezes não consigo ler. Felizmente, o peso dos livros é o de uma pluma quando são fechados.
Às vezes não consigo sequer ligar a televisão para não ver um filme. Preta e muda, nem um ai, nada, calada. Música? Não, nem no meu coração de von Trapp em plenos pulmões de Maria. Para quê pô-la se não a ouviria?
É quando estou cheia de pensamentos vagos, ainda longe da razão, aqueles que, não sendo já da matéria dos sonhos de enquanto durmo no lado mais fundo do sono, aqueles de que nem me lembro, também ainda não são da matéria da razão. Há um trânsito de pensamentos. E quando há muito tráfego, não há espaço para mais nada a não ser para aquela coisa nenhuma.
Não faz mal. Depois, direi que tive uma ideia não sei como. Ou que um verso me apareceu feito, ou três páginas sem uma rasura, e tudo isso sendo verdade, é mentira: houve antes o tempo vago, o dia peripatético pela casa, estes nadas, mais finos do que teias de aranha, depositados um sobre o outro numa trama de dessentido a tomar conta das horas todas.
E conforme começa, acaba. Sem saber porquê, lembrei-me de um artigo que li há dois ou três anos: o escaravelho, sim, esse bicharoco mínimo de vinte ou trinta milímetros, anda em linha recta guiado pelo sol, pela lua, e pasme-se, se sol e lua faltam, pela via láctea. É isto: levanta o olhar para o céu e faz o caminho mais curto de volta a casa. De que mais preciso eu para escrever?