25 de outubro de 2016

Em todo o esplendor da sua Glória

Oh que lindo Livro Amarelo!...



EM TODO O ESPLENDOR DA SUA GLÓRIA

O que há no Cântico dos Cânticos que atravessa os séculos e sendo tão de ontem se faz de hoje? Penso que seja a ideia do tempo dos inícios e a sua matriz amorosa onde as fronteiras se desfazem ou transpõem diante da urgência dos amantes: a de serem amados e se darem e se pertencerem. Aliás, neste poema dialógico, o coro, os guardas, enfim, quaisquer terceiros se diluem diante destes amantes que encerram em si, no amor que se têm e no que se desejam, as propriedades intemporais do próprio amor.

A Amada e o Amado são o casal primeiro e último, são quem somos quando primeiro amamos e quem desejamos ser depois da utopia amorosa que a paixão constrói e o dia-a-dia destrói, quando já o mundo deixou de ser dual e os terceiros, pessoas, trabalhos, dias nos são igualmente essenciais. Talvez também por isso, no poema, se recupere o tema do jardim como o vimos desde a poesia do antigo Egipto, e onde regressa o jardim edénico, o mesmo que encontramos depois na Ilha dos Amores camoniana, onde a paixão se deixa colher e de onde, obrigatoriamente, sempre seremos expulsos e para onde, obrigatoriamente, sempre faremos o caminho de volta.

Então, o que há no Cântico dos Cânticos que luz sobre o tempo, é a expressão da natureza do amor no que ele tem de perene, de para sempre, em todo o esplendor da sua glória.

Quem é o autor deste Cântico superlativo entre todos, desde o seu título? Será Salomão e por ele será a Amada, Sulamita, a de Salomão?

Salomão terá tido oitocentas esposas e concubinas, casamentos políticos e camas de desejo, mulheres com quem terá partilhado a sua sabedoria, o seu poder, os seus aposentos, o seu declínio e por fim, até perda da Graça Divina com a entrega aos muitos deuses das suas tantas esposas e concubinas. Terá sido uma entre as oitocentas, esta mulher primordial? E terá sido a filha do Faraó com quem casou e num verso com a clareza dessa proveniência lhe refere a beleza? Será o Cântico dos Cânticos um dos registos das festas desse casamento? Terá a sua encenação feito parte das celebrações?

Não sabemos. Sabemos que há matéria poética comum entre o Cântico dos Cânticos e as outras poéticas vizinhas, mais e menos próximas.

Receber o convite de Manuel S. Fonseca para fazer uma versão do Cântico dos Cânticos, foi nada menos do que um susto e uma alegria. Penso que todos temos, de pequenos, planos secretos de almas infantis que crescem connosco mas só têm lugar nos nossos desejos e nos nossos silêncios. São inconfessáveis pelas suas próprias misteriosas razões. Um dos meus desejos, agora realizado, era este, o de fazer uma versão do Cântico dos Cânticos. Para o concretizar, apoiei-me nas seguintes versões inglesas, francesas e portuguesas do Cântico: New International Version (NIV); King James Version (KJV); New Living Translation (NLT); Orthodox Jewish Bible (OJB); La Bible de Jérusalem (BJ); Cântico dos Cânticos de Salomão, segundo a edição de 1821, tradução de Padre António Pereira de Figueiredo; Cântico dos Cânticos, tradução, introdução e notas de José Tolentino Mendonça. Também no Bebedor Nocturno, Poemas Mudados para o Português, de Herberto Helder e nos Poemas de Amor do Antigo Egipto traduzidos por Hélder Moura Pereira.

Há um rasgo de medo quando um texto que é um desejo vem na nossa direcção, porque o amamos e queremos fazer-lhe justiça, é um e se, e mais outro, e se for antes assim… Mas o trabalho poético, e o de uma versão poética, também é a aceitação amorosa de que ficamos aquém do além tão desejado e perseguido. Que os leitores possam amar o Poema como amamos o Amor, com as suas imperfeições.



5 de Setembro de 2016
Eugénia de Vasconcellos