11 de abril de 2016

A Outra

Um belo par de opostos complementares...



A OUTRA
N’ O Livro dos Seres Imaginários, de Borges, há uma entrada para O Duplo. O duplo é o outro eu quando se encontra consigo mesmo. E o significado desse encontro será diferente para cada cultura – e para cada eu. Será prenúncio de morte ou de iluminação, ou será o nosso oposto complementar. O que este livro de Borges não conta, é do encontro com o seu duplo, em Cambridge, Boston, na margem do rio Charles. Mas fá-lo noutro livro, e a esse conto chama O Outro. Este acontecimento, este espelho, não é, no entanto, incomum ou coisa de ficcionista, sem mais. É um facto da vida. Não sei porque razões se dá. As razões podem ser magnéticas ou geográficas. Climáticas. Uma estranheza ou mesmo uma regularidade da física. Não sei. Porém passou-se comigo. Foi assim.

Calhou muito bem que nunca estivesse estado em Cambridge, na outra, a de Inglaterra, até lá ter chegado em estado de perfeitíssima ignorância. Foi em 2012 e por um período curto. Não lhe conhecia a arquitectura, nem o urbanismo, nem o ambiente colegial, nem a divisão social e cultural que os dois lados do parque marcavam.

Entrei na cidade pelas ruas largas dos arredores de casas ajardinadas, de árvores frondosas de chuva e sebes de intimidade - e a espreitar os passeios não fosse o meu Steiner andar por ali naquela hora.
Quando cheguei ao centro pensei: então foi também aqui que a madame do Harry Potter, como raio se chama ela?, veio buscar inspiração: edifícios quinhentistas convivem pacificamente com prédios neoclássicos, e a agudeza dos telhados, as pesadas madeiras envelhecidas lançam sombras, não sobre a terra, mas sobre a gente, e nada podem as grécias e as romas de empréstimo, nem a claridade das suas linhas direitas, nem as suas colunas altas contra isto, nada. Ou talvez seja a minha embirração de sulista com os céus de chumbo daquela terra: não há verde que pague tanta escuridão, nem a densidade de livrarias por metro quadrado, nem os sei lá quantos espectáculos de música de câmara por semana, nem o jazz nem o diabo a quatro: sou uma criatura da luz. E depois há a questão do café: foi a primeiríssima vez que bendisse a Nespresso.

Apesar das advertências, resolvi atravessar o parque logo no primeiro dia para perceber o que haveria de tão dissonante do lado autóctone de Cambridge.

A poucos passos do lado de lá, um centro comercial de lojas populares num edifício de gaveto. Cheio. A rua igualmente cheia de miúdos aí pelos quinze, dezoito anos, e o ar que tem qualquer miúdo em qualquer lugar do mundo quando está desertinho por um arraial de porrada daqueles em que enfia nos punhos a zanga que lhe vai na alma. A música altíssima. Já não via rádios monstros portáteis desde os anos oitenta. E polícia. Acho que brincavam ao Bronx, os miúdos e a polícia… Fiquei advertida com a advertência: os operários e sua descendência eram da casta dos intocáveis, valha-me Deus, no século xxi, e manda uma pessoa Vasco da Gama a caminho da Índia para isto – para isto e Nespresso Ristretto India Origin.

Dei uma enorme volta a pé, regressei, continuei a andar e quando me cansei de tantos turistas, tanta fotografia, tanta bicicleta, tantos chineses de iPhone na mão, sentei-me na esplanada de um pub com vista para os chorões dobrados sobre o seu reflexo no rio Cam, e uma família de cisnes idilicamente enquadrada por juncos – a verdade, por vezes, parece mesmo mentira, e a realidade uma paisagem kitsch de caixa de bombons. Estava a ementa sobre a mesa quando uma brisa mais forte a fez voar e cair na água. Vi-a boiar primeiro, afundar-se depois. Quando me voltei de novo para a frente, as nuvens abriram e o sol  inundou-me os olhos - por um segundo senti-me em casa. Foi então que percebi: alguém se sentara na minha mesa, defronte, mas com o breve sol ainda nos olhos, não percebi quem era.

- É só uma ementa, deixa lá. E não peças a empadinha, é demasiado salgada, e a massa tem muita gordura, não vais gostar.
- Não?
- Não. Mas suponho que isso seja inevitável como a ementa ter voado.
Ela falava português. A voz, familiar. Apesar de ser muito parecida comigo, era diferente.
- Deves imaginar que sei exactamente o que estás a pensar já que eu sou tu.
- Se fosses eu seríamos exactamente iguais.
- Estamos em tempos diferentes. Eu sou tu depois.
- Não pareces mais velha.
- Temos poucos anos de diferença, três.
- Penso que não se pode voltar ao passado nem estar em dois lugares ao mesmo tempo.
- Não és tu que adoras as famosas discussões entre Bohr e Einstein?
- Não estamos a falar de partículas. Este encontro, a ser alguma coisa mais do que imaginação, será uma experiência borgesiana, ou inteiramente literária. Não como a de Dorian Gray, ou do infame Jeckyl e Hyde, ali mais para o lado de Hesse em Narciso e Goldmund, Ele e o Outro, a alteridade de Plínio e do Mestre do Jogo, omnipresente enfim, a dualidade, oposta e complementar, os pares antitéticos fundamentais…
- Lailailai…já sei! Estava contigo na cama enquanto lias os Símbolos de Totalidade na obra de Hermann Hesse, de Yvette Centeno. Tínhamos o quê, dezanove anos quando andávamos a comprar a obra completa de Jung um volume de cada vez e planeávamos ir à Nova conversar com Yvette Centeno e Stephen Reckert?
- Ó… as tardes passadas na 111 e na
Buchholz com os catálogos de quilos ao colo, a devorar títulos para a biblioteca futura e ir à Nova, nada, sempre fui mais tímida do que os meus planos.
- Nossos.
- Sim, nossos - o que anula a antítese… portanto, se não estás aqui para sermos duas, estamos aqui para sermos uma?
- Suponho que me ficaria bem dizer-te sim, claro, e discorrer um bocadinho sobre a cisão fundamental do humano em homem e mulher, no Paraíso bíblico ou pelas mãos de Zeus no Banquete de Platão, e sobre o golpe final e definitivo de Descartes: depois de deixarmos de estar no centro do universo e passarmos a duvidar: somos agora a medida de todas as coisas, mas já não somos da medida de Deus. E se não somos dessa medida, nem dessa matéria divina, feita à sua imagem e semelhança, pois entre o corpo, natureza, e o espírito, consciência, abriu-se o mar em dois, quem somos? Somos aquele que procura quem é. E estamos de volta ao teu Hesse que o nosso Borges são contas de um rosário mise-en-abîme onde o tempo pára de correr. Todavia não é nada disto o que queria dizer-te.
- O que queres dizer-me, então?
- Daqui a uns meses voltas a escrever, quando já não estiveres em Inglaterra.
- Vim para ficar.
- Disparate.
- E mais tarde, quando vires o Interstellar e te lembrares desta conversa, a resistência entre ti e a escrita terminará.
- O que é o Interstellar? Sou muito pouco dada a epifanias e quanto a escritas estamos conversadas.
- É um filme, ou somos nós aqui, a memória de nós aqui, hoje, se preferires.
- Não volto a escrever uma linha que seja. Essa vida acabou, não posso mais.
- Essa vida ainda nem começou, garanto-te. Mas está prestes a começar. Eu vi os livros. Li-os. Escrevi-os.
- Não volto a escrever! Para quê?
- Não há para quê. Escrever é a própria razão da escrita. E quando o descobrires, quando experimentares essa liberdade sem apego a resultados que não sejam aproximares-te tanto quanto possível daquilo que queres dizer, voltas a escrever. Em casa. Até porque esta luz não combina contigo.
- Finalmente alguém vem tirar o pedido… Ah, uma nesga de sol outra vez, que bom, não é?
Contudo, diante de mim e sem perceber patavina de português solar, só a empregada.
- A shepherd's pie and a lemon iced tea, please.