8 de março de 2016

À Secretária

À SECRETÁRIA
Quando eu era pequena
o mundo era maior
e eu estava à porta do mundo
para entrar e ser maior:
ficava sentada a escrever,
sentada a crescer,
à secretária do meu avô,
na cadeira do meu avô,
o monte de folhas A4 a crescer
cheio de caligrafia bem comportada,
redondinha, fechada
como o pensamento dentro das letras:
maus poemas, maus contos, maus ensaios
e até os maus textos fundamentais - inspirados
nas reuniões das nossas cortes medievais -
do Partido Municipalista Português,
do qual fui fundadora-presidente 
um Verão inteiro, 
e um outro passado a completar
os contos inacabados de Karen Blixen,
uma experiência transcontinental-transtemporal
de aspirações pessoanas mediúnicas sem sorte nenhuma,
tive de os acabar sozinha. Bolas, Karen,
podias ter aparecido para escreveres com tua mão na minha!
Lá em casa não me compravam a Colóquio,
nem a de Artes nem de a Letras,
e parecia-me que perdia uma bula fundamental,
então, lá ia enfiar-me na biblioteca municipal
a tentar apanhar o pensamento em Portugal,
mas com atraso regional.
Na Páscoa dos meus treze anos 
veio o Jornal de Letras, mais em conta,
e eu fazia de conta que era naquelas duas redacções que escrevia
com toda aquela gente, pareciam-me… GRANDES.
Sabiam tudo, liam tudo, escreviam tudo –
admiráveis vidas maravilhosas, alfabéticas, misteriosas, sérias, institucionais,
e eu ali à espera de começar a viver e nunca mais.
Cresci. Nunca pus os pés numa redacção.
Já não compro a Colóquio nem o Jornal de Letras -
com raras excepções, é sempre a mesma história
hoje és a Branca de Neve, amanhã um dos Sete Anões,
e vão rodando e cantando os mesmos oito de sempre.
Logo eu que encontro uma flor para cada pessoa,
não ponho flores a quase ninguém.
Os meus deuses do oeste são Dickinson, Whitman, Borges e McCarthy,
e Coppola e Malick que nunca escreveu um livro.
O oriente continua a dar cabo de mim,
é um sonho onde se cai sem nunca acabar de cair.
Dos europeus amados quem mais me interessa é Caravaggio.
Talvez tenha sido pintor, mas nunca li poesia melhor.
E continuo à secretária.