14 de fevereiro de 2016

Mas dizei

MAS DIZEI
Há dias de silêncio imperativo -
logo eu que detesto barulho,
a fazer contas ao silêncio
de fim-de-semana quando 
as horas são de pastilha elástica
e duram e já nem sabem a nada 
de tanto ver o tempo à janela 
da vida, e à janela deste computador, 
chave para a porta do mundo.
O silêncio, imperativo, e
logo comigo que nunca fui de chicletes.
Entretenho-me com ninharias:
já ninguém nasce em Paris,
ninguém nasce em Barcelona,
e também vão deixar de nascer em Lisboa,
a vaca premiada ontem, hoje e amanhã 
dos últimos anos e próximos.
As casas valorizam com o short-rental,
de trinta a cem por cento, e o prédio velho,
reabilita-se - como faz a mulher,
estica-se...
Não há parisienses e os lisboetas extinguem-se
diante da nova raça, 
ave! ó Sagrada Família na praça,
os turistas espetam bandeiras
no cume das catedrais conquistadas,
e de tuk tuk perfuram o tímpano das estradas.
Preciso da era do turismo espacial,
deixem-me a Terra, façam-lhe o funeral:
quero as cidades vazias para acomodar
este imperativo.
E eu aqui, à espera de uma só palavra.
Serei salva?