26 de janeiro de 2016

Percebi bem?


O LADO DE LÁ
Foi do grandíssimo emaranhado da estação de camionetas de Boston, logo no primeiro lugar do lado direito, encostada à janela e com toda a visibilidade adiante, que parti em direcção a Sieth, a cidadezinha mais a Norte e no ponto mais alto, já na fronteira com o Canadá. Em voltas, sempre a subir - apenas uma longa descida em linha recta, pouco acima do nível do mar, nas primeiras horas da viagem.
Quando cheguei a Sieth, fui surpreendida por uma catedral que, não sendo muito grande, era toda a Sieth. Não havia mais do que aquilo…
Assente na escarpa, o átrio largo à frente, e ao fundo, em perfeito equilíbrio, o edifício maneirista. Mal saí do autocarro, eu e os outros, começou a representação da Paixão de Cristo. Estamos na Páscoa? Várias peças desencaixadas, anacrónicas, de geografia e sociologia rebeldes, organizaram uma harmonia exemplar: maneirismo e filipinos católicos, a belíssima igreja sobre a escarpa e a pique, e ao longe, um nó de auto-estradas bem iluminadas. Um quadro-vivo.
Comecei a tirar fotografias com o telemóvel – queria enviá-las ao Schultz, gostava tanto que ele estivesse ali a ver aquilo comigo. Primeiro à igreja. Depois à população de actores. Aproximei-me do limite da montanha para fotografar as estradas ao fundo, lá em baixo. Eu, sem vertigens… Auto-estradas lindas na sua geometria de curvas e rectas, laçadas de trânsito sempre a fluir, iluminando a noite.
Foi nessa altura que percebi: estava no fim do mundo como ele é conhecido, do lado de lá era já o futuro. Quero dizer, estava no fim da vida. Para experimentar o que tinha adiante, teria de morrer primeiro. Percebi bem?
- Sieth não é o mesmo que scythe?
- Não sabia. Acho que não conhecia qualquer uma das duas palavras - ainda por cima quando acordei lembrei-me dos Sith, Stars Wars... Talvez tenha sonhado em inglês para não saber.
- Então como é que soube?
- Se calhar quero o eu futuro.