20 de janeiro de 2016

E se eu morresse


SAMBA DE UMA NOTA SÓ
Penso que subestimamos o que podemos fazer com o tempo que nos falta para viver. E sobreestimamos o que conseguimos fazer num mês.
Um mês é uma unidade maravilhosa, misteriosa, de tempo ideal. Num mês pode-se mudar de alimentação e passar a fazer a dieta perfeita. Num mês, em dez horas de rigoroso trabalho, pode-se escrever um quinto da primeira versão de um romance. Num mês, ó! num mês conseguimos passar a treinar duas vezes por dia e fazer meditação ao acordar, ainda antes de sair da cama, e logo depois uma yogazinha básica. É natural. Um mês é fácil, é uma corrida de velocidade. Um objectivo: anda cá que és meu - ou não é isto que dizemos aos nossos objectivos? E ainda se faz o jantar. Leva o carro à revisão e o cão ao veterinário. Um mês cumpre-se. Um mês é fácil. Mas não dá para, além de tudo o mais que num mês se faça, ir à Patagónia e a um sítio no Quénia que eu cá sei e a savana lá em baixo… O problema do mês é o raio do nosso problema: não é só o mês que é ideal, o eu também é ideal num mês e não se compadece do outro eu que somos nós. Correr cansa, o esforço, por definição, é o caminho do cansaço e a Patagónia não se arruma entre a ida ao supermercado e às fotocópias. E o Quénia também não.
Se este ano for o último, não quero cumprir um mês de eu ideal – sim, e se eu estiver nas últimas e não souber, sabemos lá isso de hora morte?, não, não sabemos. Tenha um ou vinte anos de prazo, quero cumprir-me a mim. Todos os dias. Mesmo que seja só um bocadinho de cada vez.
Há aquela ínfima parte que depende só de mim, não há? O lugar de ser livre, ou melhor, escrava do que sou. Porque a parte de leão da vida depende de tudo e todos, da treta macro-económica às placas tectónicas - nisto não vale a pena pensar.
E se eu morresse em dois, vá, cinco anos? Ficaria tão triste se não me cumprisse em quê? Estava a pensar nisto. E descobri que sou um samba de uma nota só: Alegria. A alegria das letras e a alegria do corpo. Daqui a cinco anos conto como correu..
  1. Há um livro que gostava tanto de adaptar ao cinema. Nem me interessa que já o tenham adaptado ao cinema, ao teatro, à televisão, ao diabo a quatro. Sei muito bem o filme que quero ver.
  2. Há poemas que não consegui escrever ainda. E espero por eles. Que cheguem.
  3. O mar chão, o Amor e o Cão a deslizar numa prancha de sup, o solinho morno, tão bom. A yoagzinha básica. Os passeios de bicicleta e o meu rico NYCB workout.
  4. Acabar este romance.
  5. Organizar e rever as shorts. O que adoro contos curtos… Escrever mais uns quantos para ter escolha para esse livro que Deus quer, tenho a certeza ou não sonhava com ele.
  6. Fazer uma antologia poética dos meus ricos poetas de uma vida.
  7. E o que adorava publicar poetas jovens, só dois ou três que fossem, pronto, um estrangeiro que não tivesse andado nunca em linhas portuguesas e dois miúdos desta pátria mal amada que é a língua portuguesa.