5 de janeiro de 2016

Amén! Espirrou?, santinha...

Este texto tem dez anos. Publiquei-o em 2006, no blog Mátria Minha, a minha primeira aventura online - nem sabia fazer links...


AMÉN! ESPIRROU?, SANTINHA...
As crianças têm muitas vezes uma costela teatreira. Não tem nada a ver com talento ou qualquer outra competência das dignas artes de Talma. Faz parte da natureza exploratória da infância, esta dramatização da realidade e os pais, com excepção dos menos avisados, não ficam a pensar que lhes encarnou nos filhos o espírito do supra citado François-Joseph nem o de Sarah Bernhardt.
Ora, algures lá pelo meio da terceira classe tive um ataque de misticismo. Para a minha anti-clerical avó, a mesma que me enfiou num colégio de freiras, seria uma coisa da natureza dos ataques de paludismo, ou de outro ismo qualquer de que se conhecesse a existência mas não fosse aplicável ao nosso clima, perdão, à nossa vida.
Discreta como sempre fui ao longo da infância, planava pela casa numa suavidade nunca antes vista, de olhos a fixar os candeeiros do tecto, mãos postas e, por absoluta inspiração, de toalha de rosto a cobrir os cabelos já numa antecipação de convento.
Após uma retórica indagação, que despropósito é esse? Vá já por a toalha na casa de banho!, fui sumariamente ignorada. Mas avó, espere, não posso, estou a ensaiar para ser freira, é obrigatório usar véu! Este desconhecimento básico das regras conventuais mostrava muito bem que o despropósito não era meu. Porém não podia ser explicativa, tinha de ser boa e responder pausadamente como convinha ao meu novo estado religioso. Este estado era, aliás, de grande exigência. Raio de mundo de proibidos... Não correr, não andar aos saltos, fazer o sacrifício de não andar de bicicleta, não cantar pela casa as canções dos Gemini com coreografia em tempo real. E o jeito monocórdico-santíssimo de falar que inventei estava a dar cabo de mim. Contudo tinha de ser para me preparar para uma longa vida de sacrifícios e abnegação.
A coisa arrastava-se. Um dia. Dois. Uma semana. Rezava de joelhos ao lado da cama, de preferência se alguém estivesse a ver. Não por exibicionismo, Deus me livre, que ideia de pecador, era só para mostrar a seriedade da minha vocação. E assim mesmo, zás, silêncio, nem um eco dos descrentes. Pagãos, bezerro de ouro e mais não sei o quê! Tornou-se rotina. Chegava a casa, punha o véu, ficava tão boa quanto a imaginação permitia conceber uma bondade bíblica de Novo Testamento e… aborrecia-me. A Madre Superior quer que faça alguma coisa, posso ajudar? Já te avisei para não me chamares Madre Superior. Mau, mau! Ups, perigo: o dois em um: ser tratada por tu e palavras chave em modo repeat. Era tão perigoso o mau, mau! com prolongamento do último au, quanto o bom, bom! com o último om a descer para graves de barítono. A falta de discriminação entre as duas avaliações repetidas de natureza antagónica e aleatória, bom-bom/mau-mau, nunca me deixou em dúvida sobre o desfecho: fim das advertências = castigo.
A minha avó, ao contrário da minha mãe, tinha sérias reservas quanto à utilização das técnicas pedagogias mais recentes. Socorria-se muito de milenares técnicas de persuasão: Porquê? Mas que desplante, porque sim, porque eu mandei! Por isso, foi com grande surpresa que, já farta do drama religioso, a ouvi dizer à minha mãe: Se a minha neta quiser ser freira, que grande desgosto me dá, preferia que fosse dançarina de cabaret… A menos que Deus exista, aí o caso já é diferente! Mãe, não diga uma coisa dessas. Que quer que diga, é que já não se aguenta, se fosse só a toalha ainda era como o outro - nunca soube quem era este outro de costas tão largas que aguentava tudo -, agora isto da Madre Superior para cá e Minha Irmã para lá, dá-me nervos!
Este embate de informações exigia que me sentasse. Terríveis e apocalípticas revelações. A saber: ser freira e ser dançarina de cabaret não eram formas desejáveis de estar na vida - cabaret, ora bem, haveria de ser qualquer coisa da ordem de um café, mas com música, mais escuro e com mais fumo, como nos livros do Lucky Luke. E pelos vistos dançarina não era a mesma coisa que bailarina porque eu andava no ballet há três anos e isso era bem visto lá em casa.  Mas a grande, grande bomba era Deus ser opcional... A verdade não era, portanto, absoluta. Deus, que eu conhecia de tu cá tu lá, ou mais propriamente de o Senhor aí em cima, cheio de poder, e eu cá em baixo com um certo temor, para a minha avó não existia, ou melhor, havia uma elevada probalidade de não existir.
Foi a morte do véu, ai, da toalha. A partir desse dia, e até ao segundo ataque de misticismo, de cada vez que olhava para a capa do livro das edições Paulistas com os pastorinhos, elas de lenço e de joelhos, ele de cajado e gorro castanho, muito devotos em contemplação à Senhora que pairava ecologicamente acima dos ramos da azinheira, pensava: estão a vê-la, pensam que estão a vê-la, ou disseram só que a viram?