2 de dezembro de 2015

E se não ajoelha, é porque não sabe rezar


Quem trabalha, descansa, vá, melhorzinho...

E SE NÃO AJOELHA, É PORQUE NÃO SABE REZAR

Marquei encontro com uma pt – personal trainer. Fizemos um plano: cinco dias de treino, dois de recuperação. Quando chega sábado estou morta, mas tenho a ressurreição garantida ao domingo, o segundo dia de descanso obrigatório e chave do sucesso: o corpo pede o treino que não tem e suspira por ele…

É domingo. Em pleno estado suspirativo, pus-me a pensar nisto de ginásios, estilos de vida ditos saudáveis, e modas mais ou menos passageiras, só para dar por mim a dizer, ó diabo!, isto não é passageiro, isto é de sempre. E não tem a ver com o corpo nem com a febre do ideal de juventude. Tem a ver com a Vénus de Willendorf e a Beyoncé, duas expressões de uma mesma coisa.

Em 1908, em Willendorf, na Áustria, foi encontrada uma pequenina estatueta de onze centímetros, datada de há mais ou menos vinte e oito mil anos, feita em pedra calcária. É uma mulher. A cabeça, sem feições de rosto que lhe ofereçam identidade; no tronco, foco de toda a atenção, as mãos, ao fim dos braços finos e atrofiados, repousam sobre o peito cheio e pesado que assenta no abdómen exuberante, caído sobre o sexo, tão bem marcada a fenda, e de costas umas nádegas largas, gordas, sobem num belíssimo refego até à cintura; as coxas e pernas arredondadas não terminam em pés, nem se sustém de pé. Os estudiosos presumem que foi desenhada para a mão humana, tão bem cabe nela.

Esta que é a primeira escultura terá sido um objecto de proximidade. A Vénus de Willendorf é arte na sua forma mais primitiva, coisa tangente à magia pois é evocativa. Tenta manipular a realidade e assim se aproxima do culto e da religião.

Que desejo fechava a mão quando agarrava esta mulher abundante e nua?

O desejo de fecundidade e abundância, ao que tudo indica. E não é coisa pouca, é o garante da sobrevivência. Da mulher nua de Willendorf, e de outras estátuas similares do mesmo período e com as mesmas características, peito e nádegas proeminentes, conjectura-se que serão, digamos, talismãs.

Como se o valor do talismã se transmitisse quando é incorporado por aquela que o tem na mão – expressão reveladora, não é, ter algo ou alguém na mão? Ora, o que tem valor, tem poder.

Quem é que nunca olhou para o rabo de Beyoncé, de Jennifer Lopez? Ou para a mais willdendorfiana Kim Kardashian? Estas mulheres, para além de se depositar nelas o poder da natureza fêmea de Willendorf, poder de vida e da morte, por terem rosto, nome, definição muscular tanto quanto redondezas de estrogénio, sustêm-se nos próprios pés. Não lhes chega, a estas mulheres, serem Vénus de Willendorf, querem ter, também, a hierática inacessibilidade da rainha Nerfertiti, e a condição física da deusa caçadora Ártemis.

As mulheres estão mais musculadas e os homens mais depilados, eles estão, como nunca antes, no mundo familiar e nós, como nunca antes, no mundo profissional. É giro como até no corpo se vê, não é?

Hoje fazem-se aumentos mamários e de nádegas, lipoesculturas e dietas detox. O desejo cardinal por detrás dessas decisões não é só o de ser um objecto sexualmente apetecível. É a necessidade de ser um objecto de valor.

Fazemos agachamentos no treino como antes se pintavam os cabelos do exacto platinado de Marylin Monroe e com a mesma intenção: uma actriz de culto é uma deusa. Cultiva-se a semelhança com os deuses, seja na capela ou no cabeleireiro. Fazer como as estrelas da pop ou do cinema é a imitação dos santos dos nossos dias. O que é ser estrela? Não é iluminar? Mae West, Dietrich, Wallis Simpson, Maria Callas, perceberam cedo que o poder feminino, para ser completo, é natureza e civilização, é fêmea e macho. E, esse poder, é preciso tê-lo para sentirmos com tranquila certeza que se um homem não ajoelha diante de nós, ou fez uma ruptura do menisco, ou é só porque não sabe rezar.



Publicado na revista Epicur, Outono de 2015