4 de dezembro de 2015

ACORDAR NA TASMÂNIA

Da série Juá (de vivre), de Ana Vidigal, 2013, detalhe


ACORDAR NA TASMÂNIA

Tenho bom acordar. Bem ou mal dormida, tenho bom acordar. Abro os olhos. Presto atenção ao corpo, desde a ponta do pé esticado a experimentar os dedinhos contra o colchão até à face colada na almofada a medir-lhe a macieza. Isto faz-me sorrir de gosto. Mal comparado, é como ser recém-nascida outra vez a verificar que tudo é e está como deve ser: um, dois, três, quatro, cinco dedos, olá mão, eh lá... belos pulmões cheios de ar preguiçoso e braços abertos de escancarar a manhã num bocejo, que bom, sento-me, ignição, já está: bonjour mundo! Logo na parede em frente da minha cama, premeditado para começar bem o dia e decidir a nota do pensamento, um rapaz e o seu cão - de Ana Vidigal, da sua Juá (de vivre): ambos contemplam a árvore de Natal. Mesmo sentada na cama, junto-me a eles. Todos os dias é dia de Natal logo ao acordar. Levanto-me. E quando chego à chaminé, de presente, café! O ronron da máquina - maravilha da técnica... Depois silêncio. A luz lá fora. Ou o céu de sombras. A sequência de zhineng qigong. Os músculos todos acordados e a alegria a correr com a água do duche. Ai que fome. O tabuleiro dos vegetais com fruta frio de uma noite passada no frigorífico para um sumo fresquíssimo. Vida boa e aliterações geladinhas onde menos se espera… A centrifugadora parece um raio de um motor de avião – fun! Lindo, lindo verde no copo. Play. Yehudi Menuhin e David Oistrakh no concerto para dois violinos, de Bach – esta semana tem sido este (BWV 1043), e por muito que varie, é sempre algo que condiz com a árvore de Natal.

Mas há excepções. Quando acordo na Tasmânia, o diabo à solta sou eu. O barulho dá-me cabo dos cabides. Fico possuída. Por muito que seja, e sou, um bicho manso, e daqueles que até desejaria ser um bocadinho mais agressivo, assertivo e mais um ou outro ivo dos tantos que por aí há, o ruído transforma-me. É uma alquimia do mal que se opera em mim. Não há meditação, yoga, Deus na terra. Não tenho medo de nada, não tenho medo de ninguém, não meço, não peço, passo-me. Basta um berbequim ou um martelo persistentes e inesperados. Tasmânia. O diabo da Tasmânia. A música altíssima que parece bater junto com o nosso coração, sabes?, e ao mesmo tempo dentro da cabeça, enquanto os vidros tremem… Tasmânia. E o diabo da Tasmânia. Eu. Não há sumo verde, vegetais lixem-se, violinos? Eu dou-te a música: todos contra todos, carnificina já!

Eu é outra pessoa. E essa pessoa é um bicho nada manso. Não sei onde o eu se enfia naquelas alturas, imagino que a tentar pôr a trela e o açaimo na besta. Só de chicote numa mão e de Hobbes na outra. E mesmo assim, o animal rosna-lhe, insidioso: palerma, então o contrato social só funciona para ti? Até respiro fundo do esforço… Recua monstro que avanço!

Penso todas as semanas, à hora certa, quando vejo Homeland, foi ontem, gostava tanto de ser mais corajosa, ter sangue frio, ó… não conseguiria fazer isto nem por aproximação, nunca sobreviveria. É mentira. Bastava despoletar o modo de funcionamento acordar na Tasmânia e cometeria atrocidades. Tenho um bárbaro aqui escondido no bolso.