11 de novembro de 2015

Um homem de cama e grelhador

- Não sei se acordei caçadora se recolectora, o que te parece?
- O que tu decidires para mim está bem...
- Então, meu querido, gostava de um peixinho grelhado.


Um Homem de Cama e Grelhador

Calor rima com grelhador e caçador. Ou seja, rima com homem. Desenvolvi uma teoria sobre o homem selvagem, perdão, o marido/namorado/híbrido, essa criatura em vias de extinção.
Lembra-se de Deus dizer: não é bom que o homem esteja só? Foi no Éden, era amena Primavera, nada de 40 graus à sombra nem grelhadores nas varandas. Porém o homem, na posse do livre arbítrio, faz-se de surdo e caminha para a solidão. Quer ver?

Em 2014, Portugal teve o mais baixo número de casamentos de sempre: 31.170. Pior, este número aponta uma tendência: em catorze anos os casamentos caíram para metade. O número de nascimentos é o mais baixo de sempre e, porque uma desgraça não vem só, 49.3% dos pais não são casados. Destes, quase um terço nem sequer coabitam.

Sei o que está a pensar, não é preciso casar para ter filhos. E viva as famílias monoparentais e outras que tais! Obviamente, a minha amiga também está a pensar, e muito bem, pois sim, filha, se o casamento fosse um rebuçado também os números não teriam vindo por aí abaixo de reboleta. E aqui entra o grelhador-salvador. Vamos à teoria do grelhador.

A relação homem-mulher evoluiu. A grande chatice é que nessa evolução pagámos a comodidade com a facilidade e a coisa perdeu o interesse a longo prazo. É tudo nosso com garantia de tédio. Ó drama.

Mas como a mulheres são criaturas de poder, estará mal, mas perdido é que não está. Porque quem tem, é quem dá.

O homem é um bicho que faz. Fez o mundo à sua imagem e semelhança: ergueu, e geriu. Porém, só contou com a mulher nesse mundo do ponto de vista masculino.

Lá em casa, havia uns livros mal-amados pela minha avó, cujos títulos contam quase tudo sobre esse lugar da mulher. Ou melhor, das duas mulheres que o homem inventou. Um Noiva, Esposa e Mãe, o outro, A Mulher na Sala e na Cozinha. Para completar o quase falta referir outro sucesso editorial, As 50 Posições. Está tudo dito.

Hoje, a mulher tem outra ideia do seu lugar. É totalizante. As 50 posições na sala e na cozinha, por exemplo, é mais integrador. Em vez de duas mulheres, o homem pode ter duas em uma. 

Para o homem, a mulher duas em uma é um bocadinho baralhante, não é o mundo que ele fez. E é um mundo castrador porque a mulher com super-poderes é a mãe.

Com a agravante, as mulheres induziram as mulheres em erro: não se pode dar o ouro ao bandido, ao marido/namorado/híbrido. Não precisamos de ser iguais, porque não somos iguais, devemos sim ter os mesmíssimos direitos para fazermos diferente o que verificarmos ser mais benigno para o grupo – nós pensamos em benefício alargado. O homem pensa nele primeiro – é natural, não engravida e chegou à paternidade muito depois da mulher chegar à maternidade. Isto para dizer que retirámos ao homem deveres para tomarmos direitos. Ora, quando se lambe muito a cria, diz Donne, criam-se monstros. Não pode ser. É preciso corrigir esse disparatinho. Como? Seja uma deusa. O que faz uma deusa? Deixa-se adorar, inspira, castiga, recompensa. Seja uma fêmea alfa. Que faz uma fêmea alfa? Faz bem feito, tudo, até o mal.

Conceda ao homem o dever de ser caçador: ponha-o a grelhar. O grelhador é um apelo ao caçador que ele traz na memória. No mercado, deixe-o escolher o peixe, a carne, sentir o cheiro vago a sangue. Olhe para ele: o mercado é a savana e no quilo de bifes da vazia já ele vê pulsar o coração do bisonte caído à sombra dos pimentos e tomates, perdão, do embondeiro. Das brasas do carvão, cresce e volta o fogo inicial. À mesa, oficiada pela fêmea alfa, a tribo celebra a vida no alimento que o caçador arrancou às mãos da morte. Não há divórcio que resista a esta satisfação. Nem filhos que não nasçam, famílias que não cresçam. Perto disto, o cheiro a sardinha nos cortinados, é canja.

Publicado na revista Epicur, Verão de 2015