6 de novembro de 2015

Ainda não tive tempo para deixar de sonhar contigo

Photo de Maria João cabrita

Estava a escolher uma prancha de sup - insuflável ou rígida? Que achas? E se não gostares de sup nem de passear de bicicleta? E ginásio? Amo um estranho. Estranho amor. E estava decidir se levava aqueles copos para a casa nova, são lindos, mas são de whisky, alguém ainda bebe whisky? E tu? E, já agora, a almofada comprida. Sabes, aquelas que ocupam a cabeceira toda e onde as outras assentam? Comecei a fazer listas de sim e de não, separamo-nos aqui. Foi nessa altura que dei por mim. Ah malvada! De hoje não passas…
Fui à Wook como quem vai ao mercado e vez de trazer um salmonete vim com Ainda não tive tempo. Sou uma má gestora das minhas vinte e quatro horas diárias e o raio da vida escorre e não a agarro numa lombada em condições. Quero ser uma escritora daquelas que pica o ponto e em oito horas de trabalho, folha a folha, romances de quinhentas páginas. Toma lá. Hoje não sou essa escritora. Penso que me treinei ao contrário. Quando tinha dezanove anos ensaiava shorts em cinco linhas, andava sempre a ver onde cortaria, sai, sai e isto também vai de carrinho… Os poemas eram mínimos. Um dia gastei uma página inteira num poema e pensei, ó diabo, como é que isto aconteceu? E os contos não vale a pena publicá-los, disseram-me. Parece que não há apetência por contos curtos, coisa de meia dúzia de páginas para te roubar ao mundo, sim? E tu, leitor, o que queres?! Eu leitora gosto de contos, curtos, com pulso. E adoro escrevê-los. Porque não queres lê-los, leitor? Explica-me. Em poucas linhas. Mas digo-te: podes desgostar à vontade, escrevê-los-ei: ficarão para os teus filhos!
A poesia é uma coisa lixada, enfia-se pelos buracos das fechaduras e instala-se ao nosso lado no sofá, entra com sol pela janela, e cai com as sombras ao fim do dia. Fala na voz deste e daquela, senta-se nas cadeiras de praia abertas no passeio à beira da estrada onde nenhuma onda rebenta, agarra-se à bata por cima da roupa de loja do chinês da mulher que varre à frente da porta de casa. O apito da panela de pressão corta a estranheza entre os desconhecidos que seremos mais logo cada um fechado no seu casulo, cada um à sua mesa, tão iguais - passas-me o sal a trezentos quilómetros de distância? Hoje sonhei que, de repente como nos milagres, as árvores a que elogiava o rico perfume nocturno se enchiam de flores, uma copa carregada de leves flores brancas, entre a aparência da nuvem e a do algodão, maná florido como quem floresce só para dizer obrigada. Obrigada eu pela taumaturgia do caneco. Este assomo de harmonia, a real e até a sonhada, bem me lixa a rotina de funcionária de escritório, oito horas de trabalho com intervalos para almoço e café, se faz favor, o Cão está velho e dorme, o peito sobe e desce e quando dei por mim, tinha pasmado meia hora nesta perfeição animal: há ali leões, savanas inteiras antes da era do homem, a criação debaixo das estrelas, e nós a esquecermos que também somos bicho, corpo, a máquina exemplar de bestialidade.
Então. Hoje não trouxe poema, nem página de romance nem conto. Não se pode escrever das alturas quando o tecido da vida é a nossa segunda pele, tem de haver um grau de separação ou as palavras são carnais como as dos místicos e beija-se a natureza na boca.