6 de outubro de 2015

V5

- Ó Eugénia, um jipe em Lisboa... que horror! Até o Cão lhe pede de joelhos, não, isso não. - Não é um jipe, Rita, ao que parece é uma moradia, uma V5! E com porta bagagem, perdão, logradouro...

V5
Precisava do futuro, que prevejo mais despojado, agora, já. Aquele tempo em que não teremos de nos preocupar com a posse, apenas com o civilizado usufruto. Paradoxalmente, hoje, só pode viver despreocupado da propriedade quem tem um monte de dinheiro ou quem se faz asceta - não caibo em qualquer das duas categorias.
Viveria lindamente num hotel. Um malão de livros transumantes e música e filmes ao alcance tecnológico de um play, roupa para a estação. Não preciso de acumular. Nem sei como. Eu, que sempre gostei das minhas porcelanas, dos meus santos no oratório, das minhas roupas de cama, e enfim, de toda a parafernália doméstica em mínimos detalhes de milhares de pontos em meio ponto no Aubusson mais que perfeito... quem poderia supor? Eu nunca. Como me conheço mal!
Sairia, se o futuro fosse neste instante, da zona privada dessa minha casa futura, maravilhosamente insonorizada, para a zona comunitária dessa mesma casa, bom-dia aqui, bom-dia ali, yoga no telhado com vista para céu. E depois, se o dia não estivesse para bicicleta, apanharia um carro automático, sem condutor, limpo que no futuro continuarei com uma ligeira mas certa mania das limpezas, e iria ao mercado.
Porém, hoje ainda é ontem. Vasculho Lisboa por uma pechincha, em linguagem decente, um bom negócio.
Vejo e não acredito que afinal o futuro já chegou mas é diferente e o negócio é mau: um extraordinário apartamento tem vinte e três metros quadrados, vista para uma parede. Não é insonorizado. Não tem o restante espaço em uso comunitário. Aquele é todo o espaço, é tudo ali, sala, quarto, casa de banho, cozinha, arrumos, uma vida em papel milimétrico, sem um varandim e em chão de parquet – quero o meu Aubusson de volta, e todos os pronomes possessivos: o meu serviço de chá, as minhas estantes e o oratório em fogo aceso.
Acho que vou ficar a viver no carro. O porta bagagem, se lhe acrescentar uma planta envasada, é quase um logradouro.