15 de outubro de 2015

Love comes late

LOVE COMES LATE
Há dias que começam assim,
um vizinho martela-nos a cabeça na viga do prédio,
no nervo vago, e as pancadas reverberam, avisam:
Thou fool, this night thy soul shall be required of thee.
Mas quem está à porta somos nós,
quem avisa somos nós,
clarões no escuro dos olhos.
(Nós é um eu cobarde, escondido atrás dos muitos
para não ser o único.)
Há dias que começam assim:
sabemos que perdemos o comboio onde toda a gente vai,
e virão pela nossa alma no outono curto dos dias.
E uma frase perdura na estação vazia, na linha vazia,
na luz dourada da manhã clara, como?,
e nós a vermos o inalcançável comboio a desaparecer,
incrédulos das palavras, e a frase na duração, como se nada fosse,
cheia da certeza cosmológica de Fibonacci,
desafia-nos o entendimento: love comes late.
É o nosso atraso, afinal, que nos salva.