11 de outubro de 2015

Coração de romã

Este coração de bagos de romã, perdão, rubi, da casa Verdura, do irreverente e brilhante tio Fulco di Verdura, foi uma encomenda de Tyrone Power para presentear a sua linda mulher, no São Valentim de 1942. É lindo? Ó se é... venha cá, bebé!


Acabo de comer uma romã. Cheia de sumo. Doce... Estava convencida de que as romãs este ano não seriam boas – tenho uma grande falta de instinto agrícola, está provado. Adoro romãs. E agora lembro-me. No colégio não podíamos adorar romãs. Nem cães nem gatos nem livros. Se o português é vasto porque há-de adorar, há algum culto? Então trate de arranjar um sinónimo para a sua adoração. Era assim.
Agora que posso adorar romãs, figos, bicicletas, livros, o Cão e o que mais me apeteça, não faço outra coisa. Nem quero fazer. Explico.
Estava em casa a ver cair na tv o Muro de Berlim. Na reportagem, gente para trás e para diante num movimento incessante, e um homem de regresso ao lado oriental, zás, levanta um cacho de bananas no ar. A queda do muro, naquele momento, deixa de ser uma questão de ideologia para passar a ser uma questão de mercearia. Aquele luxo, um cacho de bananas, passava-se na Europa, com um homem absolutamente normal, nem rico nem pobre.
Nunca estive na República Democrática Alemã. Para mim, essa terra de mistério fechado por uma cortina de ferro era um artifício do negócio da guerra; era conversas incompreensíveis de Comecom, que é lá isso? E, de repente, já era O Espião que Veio do Frio no filme de Martin Ritt, primeiro, e só depois o espião veio do frio no livro de Le Carré. Mais recentemente, próximo à queda do muro, a RDA materializara-se em Katarina Witt, deusa do gelo nos campeonatos europeus, mundiais e olímpicos.  E a propósito das bananas erguidas em bandeira enquanto via cair o muro na tv, recordei os lápis que furaram o ferro da tal cortina. O meu avô, uns bons anos antes, trouxera-me desse fundo interminável de matéria para literatura e cinema que era o baluarte soviético no centro da Europa, lápis de cor embrulhados em papel pardo. Os próprios lápis eram pardos. Duros. As cores esmaecidas. E eu que tinha a ideia infantil de um leste, se oriental, pois de fausto colorido e dourado a luxos czaristas…
Então. Às vezes faço isto. Não compro romãs. Compro uma romã. É a única romã. É o cacho de bananas. Abro-a. Mil bagos sumarentos em vermelho translúcido e rebrilhante com corte de pedra preciosa. Esta única romã é a matriz até dos rubis de Verdura. E é para mim.