3 de outubro de 2015

Coisas que nos afastam do fogo

COISAS QUE NOS AFASTAM DO FOGO
Não quero estar demasiado tempo,
não quero estar demasiado perto
das coisas que nos afastam do fogo.
Quando em silêncio leio na sala,
ao longe uma voz se levanta,
e se escrevo um poema outra voz
longe o canta, e liga hoje com ontem,
e já somos uns quantos, cada um
aberto na sua solidão à presença
de todos o que nela estão. 
Quantos somos aqui comigo?
Então, não quero estar demasiado perto
das coisas que nos afastam deste fogo
em redor do qual nos fizemos
homem e civilização.
O papel impresso, a textura, o cheiro das páginas,
a costura, não são uma aventura virtual,
o affair insubstancial e asséptico do pensamento online,
em linha?, sim, de montagem e até na cozinha:
a Bimby não é só uma questão prática, funcional,
é o desarranjo do individual, faz o grupo todo igual,
e assim à volta do fogo, para quê?, se fogo é espelho
e ninguém vê, a menos que o eu seja igual ao tu.
Pensamento deste, come-o tu, demonstrador de bimbys,
criador de monólogos encapotados e de espelhos de feira -
guardem-nos para quem os queira.
Bem vês, não quero estar demasiado tempo,
não quero estar demasiado perto.
E se é preciso estar só para alimentar este fogo
verso a verso, 
está bem, 
aceito.