20 de agosto de 2015

Salvem-me!

A minha avó, criatura de pensamento progressista, era do mais conservador que pode haver. Conservadora no sentido clássico: manter tudo quanto funciona em funcionamento sem ceder a modas que não se provem necessárias. Ora, isto era a razão de um dos meus desgostos.
Ao contrário da minha avó, eu não votava a televisão ao desprezo. Gostava mesmo e muito de televisão. Melhor. Tinha a minha própria televisão portátil, numa moldura branquinha e com uma asa para a transportar. Ganhei-a, ó que grande sorte, por ter ficado doente sem poder sair do quarto. Verdade seja dita, ao contrário da máquina de escrever portátil, a minha rica Hermes Baby cor-de-laranja, e do meu rico gira discos portátil, encarnado e branco, que usava com absoluta autonomia, nunca tive autorização para ligar a televisão no quarto. Depois daquela data, só em caso de amigdalite, gripe e outras coisinhas pequenas em ite, e olhe lá… ouviu? O que eu adorava o taram-trama-taram do hino RTP a anunciar a abertura da emissão com desenhos de câmaras, holofotes, e uma antena qual torre Eiffel; a bola do telejornal a rodar com estrondo, não é uma bola, mas que disparate, quantas vezes é preciso dizer?, que falta de Boca Doce é bom é bom é, avó, mais nenhuma, diz o bebé, o genérico do telejornal já mudou para o relógio Omega.
E quem diz a televisão, diz o resto que dela decorria. Bastava aparecer um produto novo, sabonete, detergente ou electrodoméstico para ir imediatamente averiguar da sua fundamental existência. Ó meu Deus, como é que poderíamos viver sem os glutões do Omo agora que já estava provado que existiam? Para piorar tudo cantava os anúncios.
De colónia é o leite

que você deve usar
leite de colónia
pra beleza realçar

Enfim, posso dizer sem mentir que a publicidade fazia o que queria de mim ainda que lá em casa errasse o alvo, pois não só não tinha poder de compra, como não mandava nada e se tentava aconselhar era pulverizada pelo olhar verde floresta da Branca de Neve da minha avó.
Pois cresci. E aos dezoito anos tive a minha primeira casa. Mesmo minha. Toda minha para eu mandar. Foi a vingança. Desmandei. Uma televisão no quarto, electrodomésticos que nem sabia usar, e de cada vez que saía um detergente novo, uma esfregona, um pano Vileda, zás, supermercado não fosse o prodígio desaparecer.
Claro, rapidamente a carruagem se transformou em abóbora e acabou-se-me o delírio Anita Dona de Casa.
Bem, acabou-se-me, mais ou menos.
Tenho uma grande fraqueza publicitária que as cabrinhas das novas tecnologias carregadas de cookies e outras doçuras vigilantes me exploram até à náusea. Se dependesse delas, tinha um ginásio de ponta e um estúdio de yoga em plena sala, e sabe Deus o que mais. A colecção inteira da Stella McCartney para a Adidas. A da Lolë. E umas coisinhas mais em conta da Nordstrom. E os fitness trackers, Senhor, porque me fazes sofrer?, mal mudei para o Fitbit Charge HR e já a Sony vai lançar o SmartBand 2. Piedade…