23 de agosto de 2015

Filibanserin? Non me parece, prefiro la vie en rose

Não me dês o cartão das farmácias, dá-me música...

LA VIE EN ROSE
Esta foi uma semana cor-de-rosa. Não por ter sido em ouro sobre azul, ou cheia de momentos que fariam imprensa pink disparar flashes. E também não foi por alguém me ter prendido dans ses bras e falado tout bas. Foi de um rosa farmacêutico a fazer pendant com azulinho menino Viagra.
De onde vem esta loucura colorida que toma conta de tudo, até dos comprimidos para as disfunções sexuais? E já que estamos nisto, não lhe parece razoável que, se o sexo for uma função, a malta disfuncione de vez? E o prazer des mots d´amour, des nuits a ne plus en finir? Isso é que fait quelque chose a ponto de se ver la vie en rose, não é cá a função. Mas vamos por partes.
O azul e o encarnado foram as cores da realeza, por excelência, no ocidente - se viajarmos em direcções orientais encontramos os amarelos dourados imperiais exclusivos. Na igreja católica esse esquema azul-vermelho é sempre presente. No mundo da cultura pop onde se emulam os mundos reais e religiosos, o que são as red carpet se não um pisar como reis e deuses?
Ora, o uso da cor rosa esteve sempre assimilado ao vermelho, digamos que é uma diluição homeopática do encarnado pelo branco, e associado a vida, boa carnação e boas cores.  Uma cor que se encontra no traje masculino ao longo dos séculos. No feminino também, ainda que até ao século xviii, menos, e antes dos anos cinquenta do século xx, altura em que géneros e papéis se extremaram, não passava pela cabeça de ninguém dizer era uma cor feminina. As cores, do início do século xx até essa data, não tinham género, tinham idade: o rosa era uma cor infantil e juvenil. (E em alguns casos distintiva de classe social, tudo isto está aflorado aqui.) Claro, nos anos setenta, a cor tinha perdido a força dita feminina: quem fez a Revolução Sexual e o Maio de 68 não vestiria os filhos em rosas e azuis polarizados: a minha geração foi a primeira a ser vestida com a moda unisexo, calças de ganga, t-shirt pro menino e pra menina. O que sucedeu depois, quando a minha geração começou a ter filhos, foi que o unisexo perdeu a força e voltaram os rosas, os laços, e os azuis. Pais conservadores, filhos rebeldes, pais rebeldes filhos conservadores…
Se o azul vem do céu e da água e com ele vem a razão e o princípio, de onde e com quem vem o cor-de rosa?
O cor-de-rosa vem com a flor. A flor branca e a flor encarnada. E vem de sempre. Do vale de Saron para iluminar a beleza da amada no Cântico dos Cânticos; para nomear a perfeição de Cristo, para, cálice, recolher o seu sangue e inspirar demandas e para transmutar o vinho. E vem na Matéria de Bretanha e faz-se o símbolo por excelência dos seus cavaleiros e candida na Divina Comédia. E fez-se pedra no gótico aspiracional. E são rosas cor-de-rosa as que Afrodite inventa às portas da morte de Adónis quando se pica num espinho e sobre o branco da flor cai uma gosta do seu sangue. Rosa profana. Rosas sagrada. Da pureza à paixão em todas as colorações do branco ao vermelho, da alma aos maravilhosos Rosarium Philosophorum.
E a pílula cor-de rosa? Bem, palpita-me que não é flor que se cheire. A pílula azul afecta, vá, a engenharia da coisa, é o levanta e cai da questão. Já o comprimido das meninas é dirigido ao software – mexe com a intimidade do rico cérebro. Ora, pelo que a estatística me deixa perceber e nem estou a contar com a fartura de novos dados Ashley Madison ponto com e afins, se é para mexer por mexer com cérebro, quero dizer, com o desejo, mais vale a fórmula clássica que a tia Edith Piaf tão bem escreveu. E nem sequer tem contra-indicações.