3 de agosto de 2015

A Wook e eu

Estou à espera do Dalton. O Trevisan. Bem sei que ele não chega. Não vem e pronto. É assim. Se houver alguma coisa a dizer, um livro para apresentar, um prémio para receber, alguém vai, alguém vai e lê umas notas que ele escreve para serem lidas em nome da sua ausência, perdão, em seu nome. Dalton Trevisan não vem. É assim. Eu percebo-o. Há neste mundo de páginas quem goste de aparecer às cavalitas do que faz, e há quem goste de desaparecer pois que importância tem quem o faz?
Tudo isto seria folclore se ele não fosse tão bom escritor – nunca um folclore tão mau quanto o do escritor de feira, o vendedor de mantas de letras, ou o intelectual de palco, actor que eternamente leva à cena o escritor balão na noite de São João. Mas sendo tão bom escritor, e agarrando a palavra pelo cachaço para a deixar exactamente no lugar dela, não é folclore. A frase que vá, a única coisa que interessa a quem escreve é o que escreve, vá a frase, vá o livro, vá o poema e vá quem quiser. Ele não vai. Ele não vai e eu também não, estou ocupada a aprender a escrever, estou à espera do Dalton Trevisan de papel que, esse sim, é o que me interessa e me há-de chegar pela mão da Wook com título de Vampiro de Curitiba, entre, seja bem-vindo, pode morder o meu pescoço mesmo em meio à Guerra Conjugal.
Já contei que eu e a Wook temos um caso que não é brinquedo? Peço, e ela tudo sim, tudo já, tudo bem aconchegado em plástico de bolhas gradas e caixas de cartão duro. À porta de casa. Em mão. A Wook, gueixa zelosa, e eu possessiva, o que é meu é meu. E o vampiro é meu e a guerra é minha. Estás aqui, Dalton, estás na minha mão!

Olha minha vida meu amor
Há muito não és mais meu
Toda a loucura que fiz
Foi por você
Que nunca me deu valor
Por isso perdeu tua mulher
E teus filhos
Não posso com esta cruz
Acho muito pesada João
Você vem me desgostando
A ponto de me por no hospício
Uma vez conseguiu
Mas duas não
Aqui ô babaca
De tuas negras
Que nem os filhos se interessou
De batizar na igreja
Você só vai no bar do Luís
Outro boteco não achou
Mais perto da tua família
Só me operei que você obrigou
Agora não presto
Já não sirvo na cama?
Quis fazer de mim
A última mulher da rua
Mas não deixei
Por tua causa amor
Eu morro pelada
Abraçada com os dois anjinhos
No fundo do poço
Amor desculpe algum erro
E a falta de vírgula
 
FOLHA DE SÃO PAULO, 27/11/1983¹

¹A pedido do autor, tem-se aqui uma versão revista do texto publicado pela primeira vez no “Folhetim”.