3 de julho de 2015

O sol, por vezes, tem a cara da Virgem Maria

Não são elas, mas podiam ser...

Havia as primas de Espanha. Vinham à frente do Verão e ele vinha por arrasto, nos saltos das socas, nos shorts tão curtinhos, na vida a cores de livro de Anita: rosa-choque, azul-turquesa, amarelo, amén.
Todas as primas falavam perfeito português de um café e una natilla, por favor. E se alguém dissesse nata logo respondiam com a surpresa nas sobrancelhas pois haviam dito exactamente isso, o no? Por causa delas ainda hoje compro os albaricoques que então cresciam na árvore acidental lá de baixo, antes da capoeira, e que tomávamos de assalto – lá de baixo já não existe, nem a árvore, nem pitapitapita nem gemas de ovo cor de albaricoques. E à bolacha americana que comprávamos nas tardes infinitas de praia, amén.
As primas eram um monte, e o primo, um só irmão desgarrado. A minha tia, católica férrea de mantilha preta e lenta no leque, entregara à divina providência o número de filhos e a providência decidira-se por seis raparigas e um rapaz. A minha tia dizia que o filho saíra ao marido, falava a língua dos touros e dos cavalos e no resto era surdo-mudo tal qual o pai e como ele levantava-se de noite para ouvir nascer a manhã no pasto. A minha avó costumava dizer-lhe quando ela chegava sem o marido e sem o filho, as palavras a caírem do sorriso: finalmente deste descanso às almas no purgatório? Então, habituei-me a pensá-los a subirem ao céu de Espanha, que era outro, obviamente, montados nos seus cavalos para quinze dias de celeste silêncio conjugal, filial, fraternal – amén.
Se calhar porque tinham nomes bíblicos ou evocativos de Maria, todas as primas tinham dons – o de falar em línguas escapara, é certo. Tocavam. Dançavam. E a Pureza, a do meio, cantava tão impuramente o flamenco que a mãe acabava sempre a dizer-lhe com um gesto imperativo na ponta dos dedos el Padre Nuestro. E ela, hagase tu voluntad, atacava um Pai Nosso rociero para redenção dos pensamentos da mãe, as irmãs a fazerem coro, e aquela voz fazia arrepiar uma pessoa e dava gosto ao arrependimento pois justificava todo o pecado. E vinha por ali fora o Rocío em peso e até a sua Virgem Dourada vinha ouvi-la e trazer o sol ao Verão.