8 de junho de 2015

Em flama

Tanto disco dos Beatles e nem unzinho do Tony de Matos... Quem está em destaque na capa, quem é? Abaixo a tirania e quem a apoiar!

A minha avó cantava fado – em casa, claro. O meu pai também, mas mesmo fora de casa, com amigos e guitarradas, muita festa brava – um clássico, portanto. Infeliz ou felizmente, não nasci com a voz da minha avó nem do meu pai. Não tenho ouvido para a música e a minha professora de piano dizia que eu tinha mãos de aranha. Não toco um dó nem para salvar a vida: passei as lições de piano a dar aulas de ballet à filha da professora de piano.
Isto para dizer que era pequenina e adorava ouvir telefonia. Mas era a telefonia da Liana, pendurada na corda da roupa da varanda lá de cima, cheia de azul do céu e líquenes teimosos nas juntas da tijoleira envelhecida a toque de sol e chuva.
A Liana trabalhava lá em casa. Os passos dela ouviam-se na distância e parecia que falava por um megafone. Fazia coisas de fora. Era, toda ela, uma força sobrenatural como as mulheres quadradas de Paula Rego. Lá em casa, quando eu era muito pequena, havia fora e havia dentro. Fora era estender a roupa. Matar uma galinha também era fora. Mas um fora mais longe e por outras mãos. Cozinhar a galinha e passar a roupa era dentro. Eu deveria ficar dentro, mas andava fora, pisava o risco, está visto.
O rádio da Liana tinha Tony de Matos. Com os érres enroladinhos nas cartas de amor, e sinónimos a explicar bem: cartas de amor, por exemplo, são andorinhas e levam saudades minhas.
Os fados da minha avó eram outros, tinham muitas coisas singulares e notícias do meu país ao passar pela ribeira onde às vezes me debruço. Mesmo os fados do meu pai não haviam tido Tony de Matos. O meu ouvido não saberia afinar, todavia era de boa memória em quilómetros de letras tintim por tintim. Os fados do meu pai tinham tido embuçado nota bem foi um touro que o matou. Mas eu preferia o presente tal qual a vida dá e o que dava na rádio era o Tony de Matos.
Ora, a tirana da minha avó não me comprava os discos do Tony de Matos, ó rua de amargura, rua feia e escura, rua sem amor. Desconfio que era por causa das torturas do desejo, dos pedaços de dor, dos ideais que morreram, do amor desencontrado. Enfim, por tratarem de questões verdadeiramente importantes, as que nos desgraçam ou, tal como a Maria, ave, nos enchem de graça...
Não serviu de nada a tirania. Eu sou aquela que não olvida e estou aqui: decorei tudo, não pedi licença ao mundo, que falem não me interessa, lado a lado, linha a linha pelos furinhos da telefonia e nem preciso que o tempo volte para trás pois o sol volta todas as manhãs.
Vocês sabem e eu também sei!