2 de fevereiro de 2015

O coração do poema

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.
(...)
 de Jorge de Sena in Ode ao Destino

O coração do poema
Os poemas têm coração: é um facto orgânico na biologia das palavras. E não interessa ao poema, se o poema nos ganha ou nos perde no primeiro verso - o poema está-se lixando para isso. O poema é como o amante apaixonado: só quer o seu leitor, o seu interlocutor, pois sem ele, como existiria? O poema precisa de ouvir bater o próprio coração na pulsação do seu leitor, naqueles melhores olhos que o lêem e dizem, existes, és para mim.
Quando o leitor vê vida na página impressa, toca o coração das coisas, quais letras?,  que é lá isso de signos?, é vida: o verdadeiro Fiat!  não é o do poeta, é desse interlocutor, desse amante, o leitor.
Por muito que um poeta ofereça a sua voz para dizer da configuração das horas, da nova cartografia da alma, ou só para a descrição dos bagos de romã, mistério de vidro carnal, de nada vale essa voz e é-se mudo como a pequena sereia e tem-se o mesmo lugar mundo: não há lugar no mundo se o coração do poema não cabe na minha mão ou na tua – fica do lado de fora dos portões da cidade platónica.
Não interessa se o coração do poema bate num só verso, se é no primeiro ou no segundo, ou se é um coração flutuante na água primordial de onde um dia emergimos Homo Poeticus e corre em cada letra. Nem interessa se bate só no último verso, aquele fim de linha onde a fala expira, o abismo espreita, o alfabeto se desfaz em espaço em branco, e se corta a ligação e aprende que é de olhos na morte que se soletra a vida.
O coração do poema inventa a duração na escassez: um minuto é tudo quanto temos para viver: Destino: desisti, regresso, aqui me tens.