31 de janeiro de 2015

The Strange Library

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The Strange Library, de Haruki Murakami, Harvill Secker, 2014
Haruki Murakami, nascido em 1949, em Kyoto, filho de um professor de literatura, e neto de um monge budista, encontrou o pulso do pensamento mainstream oriental e ocidental, do Japão à Europa e aos Estados Unidos, vendendo milhões de livros. Como?
Manda a tradição construída em volta do autor dizer que é consequência da sua mudança aos dois anos de idade para Kobe, uma faixa de terra entre o mar e a montanha, uma cidade efervescente, portuária, culturalmente excêntrica, onde aportava gente de todos os lugares com os seus livros de capa mole, baratos, em inglês, vendidos depois em segunda mão e consumidos avidamente por Murakami. E nesta exacta cronologia convém acrescentar que, deste modo, em cada dia, se afastou da cultura japonesa e se aproximou da cultura norte-americana, e devem apontar-se as suas referências essenciais, Raymond Chandler e o Jazz de Miles Davis, com maiúsculas.
Aos dezasseis anos Murakami voltou para Tokyo. Aos vinte e três encontrou a sua própria Zelda e casou e teve um clube de Jazz, Peter Cat, até que as receitas dos livros passaram a sustentá-lo e a dar-lhe a liberdade de viver onde bem entende.
Murakami é um autor intencional, estratégico, disciplinado - tende-se a escrever como se vive e para o que se vive. Não diz de si mesmo fazer literatura, mas antes literatura contemporânea, uma linguagem ficcional mais próxima da dos jogos de vídeo e que serve o tempo de que hoje dispomos, pouco, e a captação e a velocidade de uma outra forma de atenção.
O mainstream foi, desde o início, o seu objectivo, e também a razão de ser de Norwegian Wood, o ponto de viragem na sua vida literária: chegar ao maior número possível de leitores dando-lhes aquilo que sabiam ler, queriam ler, consideravam literatura. Uma estrutura frásica simples para uma história realista. Funcionou. Deu-lhe o que literária e comercialmente pretendia: livrar-se desse mesmo realismo e, com a mesma obra, livrar-se do surrealismo anterior a ela e de ser um autor de culto e de nicho de mercado.
Agora, na realidade claramente onírica onde prende o leitor, cada capítulo leva a outro: o vício da leitura é igual ao do jogo, e aqui é alimentado a curiosidade e a velocidade aprendidas nos livros policiais. E construída em simetria com a sintaxe dos jogos de vídeo.
Murakami não dá ao leitor o que a ele escritor não interessa. E o que lhe interessa? É um homem deste tempo, para quem escrever a ficção ideal é fazer a síntese entre Dostoevsky e Raymond Chandler. Se este objectivo é ou não atingido, não sei.
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Sei que comprei ontem The Strange Library, de Haruki Murakami, traduzido por Ted Gossen para a Harvill Secker. Comprei-o por ser um livro objecto com desenhos, esquemas, cores e manchas diferentes pelas páginas, ilustrações surpresa e cheiro a papel. E por ter uma folha espessa, mais pesada, boa de tocar… tudo prazeres.
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Talvez The Strange Library seja uma história e um livro para crianças ainda que, concisamente, tudo do Murakami para gente crescida lá esteja: não se desce pelas escadas de um poço como na Crónica de um Pássaro de Corda, nem se está na biblioteca de Kafka à Beira-Mar, no entanto, ainda assim, um rapaz vai a uma biblioteca movido pelo que sempre move os contos de fadas, o desvio do caminho, e desce as escadas até ao labirinto que se esconde na cave da biblioteca, barriga de baleia com Jonas dentro.
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Não vás pela floresta, recomendou a mãe a Capuchinho Vermelho. O pai de Bela, em A Bela e o Monstro, leva uma rosa a sua filha, o único presente pedido por ela, tão singelo, não fora o rigoroso inverno de neve: não há rosas, só para lá de um portão, numa propriedade alheia. Nos contos de fadas há sempre uma transgressão. Onde pica Aurora, a nossa bela adormecida, o dedo? No fuso de uma roca proibida.
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Este rapaz quer saber sobre a cobrança de impostos no Império Otomano. Então, no caminho para casa, segue, não para casa, mas para a biblioteca municipal, a floresta, segue para lá do portão, pica o dedo no fuso da roca e é Jonas dentro da baleia. O desvio abre a porta ao interdito, ao oculto. Neste caso, à sala de leitura 107, onde lhe são entregues os livros pretendidos, sala que é a porta para o mais fundo na funda cave para onde será encaminhado e depois encarcerado. E a sua mãe, em casa, à espera que ele chegue… E o seu estorninho de estimação, quem o alimentará?
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Como nos contos de fadas, há uma prova a ser superada para que a normalidade seja retomada. Terá de decorar os livros requisitados sobre o assunto que lhe despertara a curiosidade ou o seu cérebro, os seus belos miolos e memória, serão comidinhos de uma só vez - mhmmm… Será verdade, será libertado caso memorize tudo? Ou tal prova é um pretexto para comê-los tão otomanamente nutritivos e saborosos? Há um bibliotecário careca que os comerá, assegura o homem vestido de pele de ovelha, parece que os miolos ficam cremosos, assim, quando cheios de informação.
Como nos contos de fadas, também há uma coadjuvante do rapaz: uma menina bonita que aparece e desaparece com deliciosas refeições, como se entre os mundos não houvesse qualquer barreira física, como garante da sua liberdade, como um pássaro, o mensageiro de entre os mundos - como o seu estorninho de estimação?
E ao fim de três noites fora ele está em casa. E a sua mãe? E o seu pássaro? E o que se faz com o que se passou na biblioteca? E ter-se-á passado e exactamente assim?
The Strange Library é um belo conto de fadas ilustrado e de edição cuidada. Precisamos dos três: de contos, de ilustrações, de edições cuidadas. Leia: if you don't hurry you'll be lost for eternity.