2 de janeiro de 2015

Ano Abraão

ANO ABRAÃO
- Genesis 18:3 -

Vim abrir o ano com a tua chave,
pois de meu, tenho o que me dás:
não passaste por mim sem te deteres,
não passarei por ti sem me deter,
venhas entre dois anjos, em carne de homem,
ou no aroma verde por dentro das pinhas.
Lá em Vila Viçosa havia um lacrimário,
continha a evaporação das lágrimas da rainha,
em desgostos anotados com nome, data e hora,
como quem anunciasse ao mundo um filho.
Talvez a rainha não tivesse lido o poema de
Manuel António Pina, o do teólogo jantante;
talvez, se tivesse sabido que
Deus, algures, chorava sobre
os despojos da sua pequena criatura na travessa
a caminho da copa, antes da sobremesa,
e o que de Deus em nós há com ele chora,
não lacrimejasse por medida
sobre os pargos ou espinhas
da sua ruminante angústia real.
Eu sou filha de Abraão. Na hora do grande calor,
já não ardo, sento-me à porta da sua tenda,
e quando Deus avança entre os seus dois anjos,
diante de mim, armado nem que seja
em homem invisível, como se eu não o conhecesse,
digo-lhe logo: ó meu senhor, não passes, te rogo.
por mim, sem te deteres. E ele entra, e rainha, sou eu.
Não tenho no peito um coração de cinzas e
todas as minhas lágrimas sobem ao céu quando rio.
 


Genesis 18:3 KJV  And said, My Lord, if now I have found favour in thy sight, pass not away, I pray thee, from thy servant