25 de novembro de 2014

Poema dos quarenta e seis anos

POEMA DOS QUARENTA E SEIS ANOS
Não é cedo para esta contabilidade
é a estação certa
e o dia
Algum dia tinha de ser
um destes dias
foi hoje: vi
a contagem decrescente
e a balança das almas
luminosa 
como são todas
as esperas do que sempre chegará
Pois bem:
em fevereiro publiquei um conto
um fôlego uma só expiração
estava acabado dentro e veio a página
encontrou-o - teve sorte impressa
e em novembro saiu-me um livro
de outro poeta onde fui feliz
desde antes do primeiro verso
Não tenho mais nada para mostrar
dos quarenta e seis anos
O resto não se vê são folhas inéditas
cadernos de poemas com listas de mercearia 
 e mantras: aham brahmasmi azeitonas
alcaparras comprimidos do cão
duas vezes sublinhados
notas avulso da física que jamais serei
e considerações sobre os tormentos do tempo 
torniquete apertado em dúvidas clássicas
campos e cordas transcendentais por ignorância
 – não tenho matemática só ganhei o alfabeto é a vida
E o outro resto 
o romance que interrompi para não escrever
com o meu próprio punho sobre o punho
do Verbo:
não foi na catequese que aprendi a ser mariana
foi nas linhas
o esforço fura o papel
a caligrafia é grosseira e a erudição não presta
se não for pão ensopado de lágrimas
quente de sexo estaladiço de riso
palavra pão e o mais que se foda
e foi no amor
fazer espaço ser o espaço dar espaço
ao que tu queres ser
tu é Vida
É só isto Não há mais:
o meu quadragésimo sexto ano 
cabe em poucos caracteres