17 de novembro de 2014

Amor&Café

AMOR&CAFÉ

Hoje é dia 17 de Novembro, segunda.

O café está ralo, sabe mal ao fim, ali entre o amargo e o ácido. A máquina perde água e faz um ruído estranho. Cansaço, talvez, de uma curta vida a tirar café. Os electrodomésticos já não são feitos para durar nem para serem arranjados quando se avariam.

Quando era pequena, pensava que isso de frigoríficos perfeitamente bons jogados na rua era um vício americano do comportamento. Uma desconsideração que se reflectia ali de patas para o ar e grelhas ao léu. Agora somos todos americanos. A máquina de café também deve ir para o cemitério perfeitamente boa, há-de ser uma borrachinha ou outra coisa menor.

A questão nem é a do expresso cheio de creme. Também gosto muito do café de cafeteira e o cheiro a espalhar-se pela casa e eu feita cartoon levada pelo nariz. Feliz. (Há uma coisa risonha no i e mais ainda no iz, tão risonha que até uso parêntesis e disso não gosto nem um bocadinho: sis não é iz.)

Na verdade, o mundo não está para café. Está para cápsulas. Não sou alma para encapsular café e estou um bocadinho de farta de dar com o George Clooney por tudo quanto é lado, da Nespresso aos relógios Omega. A culpa não é dele nem dos senhores da publicidade: nunca tive interesse por actores, cantores ou quaisquer animais de palco. Nem na adolescência quando se fazia um-do-li-tá a sortear Duran Duran como cromos: ficava sempre livre de quem está livre, livre está. Que alívio.

A minha avó dizia que andava ao engano. Eu, não ela. Porque afirmava a pés juntos que queria casar. Pensava, sempre pensei, que o casamento me assentava bem porque sou mansa, tenho o prazer da casa e da fidelidade. A minha avó dizia que o casamento era outra coisa, que eu amava o amor e a liberdade. Fui casada. Detestei. Divorciei-me. Um divórcio é outra violência igualmente detestável. Apesar das generalizações não me agradarem por aí além, os homens olham para as mulheres como eu olho para esta máquina de café. Não quero isso para mim. Nunca quis. Graças a Deus, quando me aconteceu, correu mal. Fiquei livre mesmo às portas do inferno. Doutra forma acho que quem estaria no cemitério perfeitamente bem seria eu.


Uma vez ouvi a Paula Rego a falar do marido. De como ela o admirava. E ele a ela. E de como cortava muito bem cortadinhas para as suas colagens tiras de ódio e de ciúme. Ninguém a interrompia quando ela se fechava a pintar. Para que serve o amor se não for para nos ajudar a ser? O resto dele é alegria. E mesmo tiras fininhas de ódio e ciúme. Cama. O amor não se fecha em cápsulas, nem se joga fora. É feliz mesmo quando lhe falta o iz: quando se lê fel é só porque precisa de arranjo.