30 de outubro de 2014

Visão, tenha duas: Um jantar em Nova Iorque, por Manuel S. Fonseca


A capa da New Yor­ker leva-nos a jan­tar a Nova Ior­que. Janta a Eugé­nia de Vas­con­cel­los e janto eu. Como é que janta cada um de nós? E como é que jan­ta­ria o paci­ente e esfo­me­ado leitor?
UM JANTAR EM NOVA IORQUE
Hoje ia jan­tar a Nova Ior­que. É Outono e em Manhat­tan quais­quer 12 graus cen­tí­gra­dos sabem a 16 ou 17. Podía­mos ser três ou qua­tro, para a con­versa ir de car­ri­nho. A espla­nada do Aqua­grill, na Spring, é uma delí­cia, e se nos desse um arre­pio, mudá­va­mos de mesa, lá para den­tro. As ostras saem de gelo e mar e se man­dás­se­mos vir cham­pagne, o pro­mís­cuo cham­pagne não se impor­ta­ria nada com um petit ménage de lín­gua e ostra. Isto na sala, por­que depois e por­que hoje se marisca, para cami­nha, o estô­mago pede viei­ras, as gril­led scal­lops, a bivalve carne sólida, super­fí­cie ace­ti­nada, que se entre­gam, insi­nu­an­tes, a uma boa aber­tura de lábios e den­tada firme. É por isso que todo o cora­ção que sai do Aqua­grill é um cora­ção apaixonado.
São agora nove da noite e teria almo­çado antes, por volta das treze, no infer­nal Gol­den Uni­corn, enfi­ado num pré­dio assus­ta­dor de uma esquina de Chi­na­town. É o paraíso can­to­nês do dim­sumDum­plings de cobre, cre­pes de veludo, a insa­ci­ada boca (perdoem-me o abuso lexi­cal) a goludicear-se na espes­sura de tanto frito – nada é tão frito como o abso­lu­ta­mente frito da cozi­nha des­tes chi­ne­ses. As salas do Gol­den Uni­corn são deca­den­tes salas de baile pro­te­gi­das por uns imen­sos e ron­ro­nan­tes dra­gões de ama­re­lís­simo ouro. Têm olhos semi­cer­ra­dos e satis­fei­tos, uma pre­gui­çosa lín­gua em fogo, uma bar­riga lacada a bar­be­cue e fresquís­si­mos fres­cos do mer­cado. Fazem-se novas ami­za­des no Gol­den Unicorn.
Antes do Aqua­grill, pelas sete e meia da tarde de Manhat­tan, havia de pas­sar pela Bro­adway. Volta-se ali, à W 44 St, encos­tada a bai­la­ri­nas, bai­la­ri­nos e acto­res, como quem volta à escola pri­má­ria. Ou como quem volta a abra­çar o Pedro Ban­deira Freire, tão len­dá­rio fre­quen­ta­dor quão len­dá­rio é este Sardi’s, fun­dado em 1921 e onde se bebe o mais vibrante dry-martini, um dry-martini que irrompe como um tigre e nos faz de todo o apa­re­lho diges­tivo a mais ampla e lumi­nosa auto-estrada. Bebe-se ao bal­cão do velho bar, o mais des­pre­ten­si­oso e dinos­sáu­rico bar de Nova Ior­que. Cheira tanto à casa dos nos­sos avós que só se levam ao Sardi’s os mais anti­gos e incon­di­ci­o­nais amigos.