3 de outubro de 2014

Visão, tenha duas: Táxi


Chove nesta The New Yorker. Quem anda à chuva molha-se. Vejam como é que se molham, diferentes, os olhos do Manuel S. Fonseca e os meus. Molhe também os seus.


TÁXI, A METÁFORA PERFEITA À CHUVA E A REALIDADE AO SOL
Quando era pequena não havia táxis. Noutras casas a existência de táxis era uma realidade, mas na minha só se sabia da existência de carros de praça - descobri, portanto, o táxi mais tarde. O carro de praça era um veículo que supria uma falta.
Ora, a minha avó que não conduzia, nunca conduziu na vida, nem pretendia jamais em tempo algum conduzir, não suportava carros de praça. Lembro-me de pensar nisto como uma grande interrogação, um quase mistério. Se não conduz e gosta de ser conduzida, havia de os adorar… Não. Carros públicos não.
Não é exactamente um segredo bem guardado que a minha avó era para mim a própria da encarnação de Deus na terra e planetas circundantes. Resumindo: só tirei a carta porque me obrigaram. A minha irmã começou as aulas de código assim que pôde e de forma a fazer o exame de condução logo na semana em que faria os dezoito anos. Foi nessa altura que me caiu a bomba em cima, e que parecia mentira, e já a minha irmã mais nova conduzia e lailailai. Enfim. Lá fui tirar o raio da carta. Para quê?
O carro de praça, o belo táxi, é o meu automóvel preferido - a influência de Deus nem sempre levou  a melhor. Pior. Apesar de ter uma vocação pouquíssimo comunista e de defender a propriedade privada, perco uma série de tempo a achar que sou a proprietária do futuro: não quero ser dona de nada – e já fui de algumas coisas, não é real, porém este ponto, ser ou não ser real, é filosófico e logo volto a ele noutra altura mais conveniente. Quero é ser dona do usufruto de algo e enquanto estou a usufruir. Chega.
O que eu gostava era de morar num hotel, ter à porta quando necessário um carro que não fosse meu com um motorista que fosse dele mesmo. Quem diz de isto, diz de tudo.
O meu sobrinho mais velho compreende-me. Filosoficamente. Na altura ele só tinha quatro anos. Estávamos de férias, férias familiares e alargadas como ainda não voltámos a fazer, e alojados num hotel de frente para o mar - bastava descer as escadas para termos os pezinhos na areia. Vínhamos pelo corredor, só a minha irmã, ele e eu. De repente, diz-nos:
- Gosto muita desta nossa casa.
A minha irmã:
- É um lindo hotel, mas não é nosso.
E ele:
- Enquanto aqui vivermos é a nossa casa, não estamos em mais nenhuma.
Tenho um pequenino senão: comprar, possuir, ser dona mesmo de papel passado e ai de quem, gostava, ó tanto, de ser dos livros todos que desejo e espectáculos e lugares do mundo, do sonho das galáxias, tal como sou dona do Cão e a pessoa dele. E como não sou do Amor. É inútil, bem sei, os livros continuarão e eu tão morta, o bailado e os meus concertos já lá estavam antes e estarão depois mim, o que vi nos olhos do Hubble não se agarra, e não há afecto monolítico, sequer o canino. Nem o amor do Amor nem o meu o são ou serão. E ainda bem ou vida seria de altarzinhos de um santo para uma vela. Tudo da vida é em time-sharing.