9 de outubro de 2014

Visão, tenha duas: Sol de LED


Fomos pela capa da New Yorker, o Manuel S. Fonseca e eu. Entrámos em diferentes mercearias, mas podia ser a mesma. Eu comprei bordado inglês, ele vendeu um espada americano.

SOL DE LED

Quando era muito pequenina, antes de qualquer distopia, era mais vigiada do que as páginas de 1984 e sem ter um Big Brother.

Entre os dois e os cinco anos vivi em regime de controlo absolutista depois de ter sido expulsa, perdão, convidada a retirar-me do colégio. E se queria sair de casa… e não só para andar de bicicleta na rua, rua verdadeira, qual no quintal das traseiras, que nervos! Mas nada, nem para recados, logo eu tão bem mandada e tão disponível para antecipar toda e qualquer necessidade. E tão compostinha e bem penteada, vaidosa de berço. Cheia de boa vontade. Ai que lindo descascar ervilhas, mexer segredos com colheres de pau escuras de uso e os frascos rebrilhantes das compotas. Que beleza o cheirinho dos lençóis brancos nos estendais lá de cima onde, ao fundo, crescia a inclinação das telhas bordadas a líquenes. Andava sempre enfiada na cozinha, na dispensa, nos quintais, nos guarda-fatos, no armário da loiça, a farejar as estantes, a mexer nos proibidos como o açucareiro de pesado cristal azul escuro numa monture linda de morrer de bons tempos já mortos, e dentro das arcas onde cabia inteirinha mais meia dúzia como eu, todos conservados em cânfora.

Se o quer que fosse estivesse lá em casa, saberia onde estava, mesmo o que estava na gaveta do por enquanto, um lugar de transição e desarrumação: uma fita, fio, uma tesoura, um lápis, uma carta aberta e o calendário do pintado com a boca e com o pé, vendido de porta em porta: o meu avô dava-me dinheiro para aquele contorcionismo angustiante – só queria comprar um caixote deles, todos, pronto, e nunca mais haver essa fatalidade de nascer sem braços por um passe de mágica comercial.

Não podia, então, sair sozinha, o que me parece razoável, mas também não podia ir com quem fazia as compras, o que me parece indecente. A raiz do problema estava à porta de casa: a rua de todo o comércio.

A mercearia dava cabo de mim: a gruta de Ali Babá ao pé daquilo era nada. Via as pessoas a comprar o grão que cantava na medida de metal, e o bacalhau pesado na balança nova enquanto a fruta se equilibrava nos pratos e com os pesos da balança velha. Ai aqueles armários do chão ao tecto com tudo quanto se poderia querer, e eu queria, tachos levezinhos e sabão em barras que se cortavam com facão de ogre. A mais linda loiça de feira e bombons pequeninos de mau chocolate com um recheio pasteloso de açúcar – adorava-os e às pratinhas coloridas em que vinham. Chupas de caramelo: um cone espetado num palito e forrado a defensivo papel vegetal, uma maravilha enjoativa com legendas: esta miúda só gosta do que não presta, sai muito em conta esta minha neta.

E confesso: perdia a cabeça na retrosaria arrumada com primores nervosos: aprendi mais ali do que mais tarde com a parvoíce da metodologia para o trabalho científico. Fora das caixas, a amostra do que estava dentro delas, a variedade dos botões, colchetes; as gavetas etiquetadas tinham fitas de nastro, seda, cetim, veludo, e abriam à largura pretendida, e as peças de tecido, céus, peças inteiras ou a metro onde se escondiam, naquela lisura enrolada em cartão duríssimo, saias de pregas perfeitas, escocesas ou não, casacos ora com macho ora assertoados, vestidos Deus queira cheios de folhos e favinhos ou de fresquinho bordado inglês. E por bónus, quem haveria de dizer, a aritmética do futuro escolar fácil facinha de se tem esta largura então quero duas alturas. Assim não custa ter vinte valores sem explicadores. E os atacadores que rimavam com isto vendiam-se no sapateiro.

Fugi muitas vezes para lá. Adorava o sapateiro e os sapatos, os caros e os baratos, nada difíceis de distinguir, todos em puríssima igualdade de trato desde o tempo de internamento aos cuidados prestados. Ficava sentada num banquinho e ele vá de fazer voar aparas e de afiar a navalha numa tira de couro. Meticuloso. E a máquina de coser as solas? Maravilha de força bruta. Mil sapatos possíveis e eu, raios, de botas ortopédicas em todas as estações. Quando me apanhavam e devolviam, bem dizia, se estava com o vizinho sapateiro, mas qual vizinho sapateiro nem meio vizinho sapateiro, a quem é que esta miúda sai? O lugar mais desarrumado da minha infância, o mais atafulhado, o mais pequenino, o palácio secreto dos sapatos. Cheirava bem, a cola amarela e grossa, a couro e cera no balcão tão velho que até a sua madeira inventava saudades das florestas já mortas.

Mas melhor do que tudo eram as histórias em livraria e papelaria com relíquias de outros tempos enfiadas lá ao fundo onde a clientela não entrava. E havia uns bonequinhos, meninos, meninas, cães e gatinhos, pais natais, casas de conto de prodígios, coisas mínimas de máxima lindeza em papel de poucos centímetros na folha da qual se desprendiam, e purpurinas, assim na bochecha ou a sair brilho da chaminé. Colavam-se para enfeitar os cadernos da escola de muito antes de eu nascer. E estampas que se retiravam com cuidado e pouca água não se fosse rasgar a asa da borboleta. E ele, o vizinho da livraria: já ninguém compra isso. E a mulher dele, vizinha minha, sempre ao lado, já ninguém compra isso. Mas eu comprei um saco inteiro de folhas Glanzbilder que me durou até à quarta classe: enfeitava os cadernos e as sebentas que de sebentas só tinham o nome: mil horas de trabalhos, tabuadas e verbos inteiros, primeiro na sebenta, a lápis, depois a limpo a lapiseira no caderno, e mais tarde a caneta de tinta tão pouco permanente que se desfaria em borrões escorridos como os desenhos japoneses se apanhasse uma chuvinha de nada.

Não vou contar da loja dos brinquedos nem da sapataria dos sapatos de verniz e das socas de pau da Anita de onde vim arrastada mais do que peixe na rede. Não tive sorte, claro, as duas ou três birras homéricas protagonizadas por esta yours truly não produziram os resultados pretendidos, nem foi compreendido o terrível desgosto consumista, além de, uma vez em casa, ter ficado com o rabo a arder e não ter sido por estar chegada à lareira... Artigos de primeira necessidade, ó Tiranas, as duas em conluio, tal mãe tal filha, feras! Estão a ouvir? Por vossa tão grande culpa tenho uma apetência por Mary Janes que ainda não me passou e duvido que venha a deslargar-me um dia…

Este mundo fechou. Aqui, do lado mais ocidental da vida, fechou. Transforma-se dia a dia num imenso centro comercial onde, a espaço certo e com a metragem bem definida, podemos encontrar o franchising, as catedrais dos nossos desejos, dos nossos serviços, ou muito mais correctamente nesta linguagem de multinacionais, o lifestyle, do pensamento à roupa de cama, em acordo com os grupos de pertença social também eles pertença de grupos económicos. Amazon, bares de gin, Murakami, cayennes brancos de menina, bmws em tamanho de funerária para os rapazes. Assinale com x e consulte o espelho dos resultados tidos e aspirados.

Cada vez mais e maiores, as superfícies ganham tecto para nos tapar o céu dia e noite e fazer o perpétuo dia em turnos sucessivos. O mundo, este mundo em sol de Led, este já não fecha. Caminhamos para a planetária cidade global de Asimov, homogénea até nas diferenças previsíveis por educação e carteira, e mais cedo do que tarde, explicitamente como agora ainda com a discrição possível, seremos cidadãos da multinacional que nos empregar  - e ai de quem não for cidadão.