9 de outubro de 2014

Visão, tenha duas: Nova Iorque sempre foi em Luanda, por Manuel S. Fonseca



Fomos pela capa da New Yorker, a Eugénia de Vasconcellos e eu. Entrámos em diferentes mercearias, mas podia ser a mesma. Ela comprou colchetes, eu vendi um espada americano.
Visão, tenha duas: Nova Iorque sempre foi em Luanda
Toda a gente sabe que a Vila Alice é um bairro de Nova Iorque. Fica ali, encastrado entre o Soho e a Little Italy. Já ficava, muito antes de se ter encostado à Vila Alice uma africaníssima Chinatown – encosto recente, não tem mais de um lustro.
Pode parecer que o meu forte não é a geografia. Enganam-se. Quando um dia, pela primeira vez, cheguei à Califórnia, soube logo que tinha voltado a respirar o espaço que, por todos os poros e com narinas boca-de-sino, se respirava em Angola. E não me venham dizer que o mundo é pequeno. O mundo é enorme, é maior do que as duas orelhas do Dumbo, mas sendo grande, e por ser tão grande, o mundo repete-se. Há um bocadinho de Alfama a subir para o Sacré Coeur e havia um bocadinho dos anos 50 de Bronx e Newark na Luanda dos anos 60.
Na Alberto Correia, a minha rua da Vila Alice, havia pelo menos três mercearias. Mas só a mercearia do Senhor Manel, a mais próxima da minha casa, se pode gabar de ser o espelho borgesiano das mercearias que podemos pressentir no “Bronx Tale”, único e gentil filme que Robert De Niro dirigiu, ou nos romances abusivamente autobiográficos que Philip Roth escreveu.
Na mercearia do senhor Manel não se vendiam metáforas, é certo. No entanto, havia duas entradas de metonímica afinidade. A canónica entrada das horas legais de funcionamento, precedida por três degraus que podiam, se fosse mais devoto o continente, ser os degraus de uma capelinha setecentista. Fechava à hora de almoço e, se ainda me lembro, agora que vivo nesta terra de nariz esquimó, fechava outra vez quando o sol se punha. Depois dessas horas, entrava-se na mercearia por outra porta, a porta lateral que dava para um pátio, onde às vezes o senhor Manel punha uma mesa guerreira para partidas de sueca que levantavam alaridos de Aljubarrotas. De uma tomada interna, o senhor Manel sacava uma puxada e era à luz de uma gambiarra que se batiam as cartas. Cruzavam-se Nocais e Cucas e nós, candengues, ouvíamos da boca dos mais velhos o que ainda hoje não nos atrevemos a dizer.
Podiam ser, se fossem sicilianos, mafiosos do Bronx. Estavam ali, de gordos ou ossudos rabos enfiados nas cadeiras, apostas sobre apostas, fumo a entrelaçar-se em fumo, até às quatro, cinco da matina. Um dia, um deles tentou pisgar-se às três da manhã. A perder, o velho Augusto lançou-lhe um labéu capaz de gelar os trópicos: “Parceiro da merda, joga duas partidinhas e vai-se logo embora.
Eram traseiras de filme, traseiras de “Rear Window”. Jogavam-se cartas como num “film noir” e colados aos cigarros, às cervejas, a um whisky com 7 up, estavam Edward G. Robinson e Walter Brennan. Ria-se como se ria na prisão do “Rio Bravo”.
Era a vida, mas não era nenhum atraso de vida. Repetindo o ritmo de um quintal mafioso dos anos 50 de Nova Iorque, o pátio de mil suecadas de Luanda antecipou o que depois sacudiria a América. Os carros dos primeiros anos 60 eram as carrinhas Ford, uns Chevrolts e Plymouth, espadas americanos. Por pouco tempo. A luz da gambiarra da mercearia do senhor Manel iluminou, oscilante, a chegada do Simca do meu pai, do Triumph da Mimi, do Fiat de abertura pela frente do lixivieiro, do Alfa-Romeo do largo dos Cunhas, do Volkswagen preto do inspector da Pide, do Citroen e do BMW da família dos engenheiros. Se em Detroit estivessem atentos, saberiam, em meados dos anos 60, que a indústria automóvel americana estava condenada.
Tudo o que os japoneses fizeram depois – a baratíssimos Hondas, Mazdas, Toyotas – foi só um golpe de misericórdia. O mundo mudou sim, mas à luz ténue da gambiarra do pátio da mercearia do senhor Manel. Na Vila Alice, esse bairro meio-judeu, meio-italiano, de Nova Iorque. Digo eu que, agora sei, de carregada nostalgia, que Alice doesn’t live here anymore.