11 de outubro de 2014

UN AMOUR DANS LA BOUCHE, FOGO QUE ARDE SEM SE VER

"O Amor é fogo que arde sem se ver", de Luís de Camões, com a companhia de "L’ Erotisme", de George Bataille, e de "La Capitale de la Douleur", de Paul Éluard.
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

UN AMOUR DANS LA BOUCHE, FOGO QUE ARDE SEM SE VER
Em L’ Erotisme, ao elaborar o conceito de beleza, Bataille conclui que o desejo de beleza é, na verdade, o desejo de profanação do belo e de transgressão do humano: não se podendo profanar o feio, é o belo que é erotizado. O êxtase e a violência apresentam-se como entrelaçados traços constantes na natureza que nos coube, e com todo o seu horror e fascínio: le cœur n’est qu’une seule bouche.
Profanar é destituir o sagrado para erigir o quê em seu lugar? No coração do tabu estão a angústia e o prazer juntos, c’est un plaisir, c’est un désir, c’est un tourment, portanto, a morte de que se foge e a morte que se persegue, nó duplo de medo e desejo: mourir de ne pas mourir.
A experiência do belo, de desejo, de profanação, de morte, tem uma sensibilidade religiosa: o eu erótico nos seus componentes daqueles êxtase e violência, seule la doleur prend feu, ameaça os pactos sociais e a integridade psíquica: desliga-se não apenas dos outros, mas do lugar de fronteira com o sagrado onde se constitui humano. Esse eu que somos nós está só: entre mon désespoir et la raison de vivre. Esta é a morte. Excluído. Só debaixo das estrelas.  
A beleza é, então, um problema que se apresenta ao desejo: como se estabelece uma relação com o objecto erótico se este obriga a uma relação com os escuros dele e os nossos porque também o somos? Et je suis tour à tour et de plomb et de plume, une eau mystérieuse et noire qui t’enserre.
Porque a beleza convoca toda a luz da claridade, chama também o escuro que a devora, leurs ailes sont les miennes, rien n’existe que leur vol qui secoue ma misère, leur vol d’étoile et de lumière, leur vol de terre, leur vol de pierre sur les flots de leurs ailes, ma pensée soutenue par la vie et la mort. Seja na natureza, na mulher ou no homem, a luz e o escuro, uma só boca. Esta é a nossa matéria prima, e da consciência deste mistério vive a arte quando se faz tangível por palavras, música, pintura. Disso e pelos buracos de silêncio e vazio que o permitem: je chante la grande joie de te chanter, la grande joie de t’avoir ou de ne pas t’avoir.
Quanto mais belo, mais claro e mais obscuro, mais intenso e mais breve: a morte faz-se uma presença na vida, o visível sussurra ao ouvido do invisível.
A experiência do belo, do amoroso, do erótico, será sempre também uma experiência de sofrimento. Isto significa que o sofrimento pertence à beleza. Legitima o elemento sádico e o masoquista. O amor é, de facto, a ferida que dói e não se sente, a ferida que temos e a que infligimos.
Como a arte maior de Camões é fogo que arde sem se ver: ses yeux ont tout un ciel de larmes.