19 de setembro de 2014

Visão, tenha duas: Pela frente ou por trás?, por Manuel S. Fonseca

Back Story, de Lorenzo Mattotti


Esta capa da "New Yorker" deixou quatro olhos abertos, os da Eugénia de Vasconcellos e os meus. Cada um viu o que viu, de frente ou de trás. Será que se pode também olhar de lado? 
Pela frente ou por trás?
Sei muito bem o que é um decote. Sei muito bem que altíssimo sobressalto um apertado e redondo par de pombas pode provocar no febril corpo de um homem. Mas nada se compara ao vestido de finas alças sobre os ombros, estuário aberto que se vem fechar sobre as cinco fundidas vértebras do sacro – é incomparável a geografia de umas costas nuas.
Sei muito bem que há um venusiano planalto à frente. Mas atrás! Esses espaços abertos, duas rasas planícies com um rio ao meio. Planícies de neve, planícies que o sol torrou. Qualquer turista vai pela frente, torres Eiffel de Madonna, funda gruta de Lascaux. Mas as costas nuas! As costas nuas pedem a didáctica inclinação de um Ovídio, a delicadeza e persistência do lento aprendiz de uma “Ars Amatoria”.
Cinco versos cervicais levam-nos da cabeça que nos ama à linha dos ombros. Cinco versos, cinco discos, pingentes de ouro e prata a pedir o escorregadio beijo dos lábios, os dedos em cacho, como quem vindima em En-Gaddi.
Depois, na ampla e vagabunda beleza torácica e lombar, deixa-me ser o pastor que apascenta os teus rebanhos.  Por estas estepes correm os cabritos, a gazela alegre, a corça dos campos, os simétricos olhos de um tigre. Atravessa-as o mais móvel dos túneis – são tão direitas as costas e tão móvel essa lírica trança gelatinosa e óssea que reverbera a cada toque da polpa de uns dedos, ao sopro de uns lábios, a uns encaracolados cabelos que nela se rocem.
E, no entanto, nem tudo se move. São firmes e fundidas as 5 vértebras do sacro, firmes e fundidas as 4 vértebras do cóccix. Estão ali imóveis, colunas que sustentam um jardim. Sem elas, sem essas vértebras resilientes, nunca o poeta poderia ter dito: “Eu entro no meu jardim, eu como o mel, o favo.”
Cauda equina de tão nervosas raízes, já o vestido te esconde, para que melhor te adivinhemos. E por mais que o manto tape, nele se desenham os maciços perfumados, a escura e africana fenda da Tundavala.
O amado, que desceu em beijos cervicais, que correu torácico,  que se perdeu no bálsamo lombar, que flutou no imóvel rigor sacrococcígeo, suplica agora à amada: “Pela frente ou por trás?” E ela, voz de Inverno, rosa de Saron: “Ó meu amor, pela frente ou por trás, por mim tanto faz.”