12 de setembro de 2014

Visão, tenha duas: O Rato Steinberg



A capa da New Yorker, os dois olhos do Manuel S. Fonseca, os meus dois olhos. Uma capa, quatro olhos, duas visões. E qual é a sua? 

VISÃO, TENHA DUAS: O RATO STEINBERG
Podem dizer e escrever muito e tanto e bem sobre Saul Steinberg. E decerto aprenderei com quem o fizer - e com quem anteriormente o fez. Mas isso não retira uma vírgula ao preconceito, ao pré-conceito que tenho deste trabalho dele em particular e que para nosso benefício faz a capa de The New Yorker desta semana.
Em 1967 nasci entre tamanhos gritos que no jardim perto perguntavam quem grita assim, porquê. As horas foram demasiadas: as de dois terríveis dias para um bebé de antes do tempo – tinha a chegada prevista para o fim de Dezembro, princípio de Janeiro, e adiantei-me.
Com a experiência de nascer para a vida trouxe agarrada a ideia de morte que, pouco a pouco, mas feliz e significativamente, se afastava das salas de parto, da mãe, do filho. Acabou em bem para as duas, nenhum risco, apenas a sombra com que o medo escurece as paredes. Porém estou convencida de que, talvez por isso ou porque sim, vida e morte, essas duas forças presentes em toda e qualquer existência, essas duas serpentes pulsantes, em mim, bem se combateram e muito, até se descobrirem equilibradas em poder e se unirem em torno da árvore da vida, afinal, sobre o Caduceu de Hermes disse Homero na sua Ilíada: agarra a vara com a qual ele enfeitiça à sua vontade os olhos dos mortais, ou os desperta para a vida. Só assim a arte, pintura ou música ou poesia é possível.
(Sei o que está a pensar. Um cartoonista é um artista? Sim, às vezes. Steinberg era-o, quer para Nabokov quer para si mesmo; sabia-o, tanto que se descrevia como se pensava: a writer who draws - de vez em quando acontece. Não era Foucault quem afirmava: a relação da linguagem com a pintura é uma relação infinita? E noutros campos: há músicos só fazem matemática. E matemáticos que encontram a música, olhe, Bach – oh criatura maior da beleza organizada, je t´aime.)
Saul Steinberg, cujo centenário do nascimento se celebra, sabia disto ou, pelo menos, o seu desenho, as suas ilustrações, colagens, esculturas, sabiam-no. E isto é: a consciência e a luta pela dominância de uma das polaridades, ter pulso e tentar integrá-las e falhar, ou suceder. Este trabalho de 1967 sabe dizê-lo melhor.
Porquê?
Este rato híbrido de Mickey Mouse e terror diante do cavalete-espelho é um originalíssimo auto-retrato de maturidade. Ainda que digam que os seus auto-retratos são gatos do seu próprio gato, é rato também, é este Mickey Mouse persecutório. Explico.
Quantas vezes conseguimos ver no nosso rosto, o rosto que cindimos de nós e depositámos nos outros, aquele que não podemos nem suportar, e nos assusta até? E quantas vezes somos os agentes responsáveis pelo caos que nos cerca no mundo que prometemos recriar em melhor cosmologia e o fazemos pior do que era à nossa chegada? Quantas vezes deixamos que no corpo de amor a morte nos colha como só ela pode e como só o amor permite? Por fundo a folha de música por escrever. Não são necessárias as notas na pauta: penso que este auto-retrato é dança macabra de um.
La Danse Macabre é, formalmente, a representação de uma dança. De forma simplificada: esqueletos das quatro partidas do espectro social e moral dançam sobre as próprias campas, no cemitério. Mas, e mesmo em diferentes culturas, nesta dança, a imagem traz metaforicamente, ritualmente, gesto, e texto por vezes, para a desordem social, o pecado e o sexo e a morte articulados entre si como os próprios ossos dançantes para que os possamos ver e ler.
Danse Macabre, Michael Wolgemut, 1943
Danse Macabre, Michael Wolgemut, 1493
Trazida do fim da Idade Média, qual Bela Adormecida, esta dança não terá acordado do seu sono para os olhos do grande público com a Silly Simphony, The Skeleton Danse, da Disney, de 1929? E não se terá feito parte do nosso quotidiano, e tão visível que nem se repara, quando Saul Steinberg, assim, ao espelho, com cabeça de Mickey perverso, na linha de perigo, nos devolveu o rosto de uma época, o nosso rosto no tempo, e o rosto que temos e os olhos não podem ver?