21 de setembro de 2014

POEMA PARA A ANDORINHA EM ÍSIS

A ANDORINHA
Sem que tivesse visto como,
tinha uma andorinha a voar
uma inquietude de gritos,
tão aflitos,
já passava das três da manhã, 
foi ali mesmo, 
na varanda ainda agora em frente 
dos meus olhos. 
E eu tão aflita como ela, 
sem saber o que fazer
para a assustar menos
e me assustar menos
- tenho uma superstição feita de pássaros -
quando fosse abrir a janela, 
tanto quanto possível,
para lhe oferecer saída.
Porque tenho uma superstição
feita de pássaros: acredito
como quem sabe que trazem
mensagens de um mundo 
ao meu lado sem que o veja:
quem me fala, com quem falo?
Nunca até hoje assisti
a uma andorinha que voasse
casa adentro às três da manhã.
Abri as janelas que pude,
o mais que pude,
e mal o fiz, ela saiu.
De noite, todos sabem, 
não é preciso ser Plutarco,
nem ter pisado o chão de Philae,
Ísis transforma-se em andorinha
e voa e grita por seu amado,
seu irmão, seu marido: Osíris.

Se de dia Ísis usa a chave dos mistérios
na mão, e o nó dos imortais,
o toucado de abutre e suas longas asas,
o trono sobre a cabeça ou 
entre os cornos, o disco, e com ambos
faz a lira luminosa, 
se de dia usa o seio exposto 
porque de dia Ísis é 
a mãe do mundo e a rainha do mundo, 
dona das portas da morte e do segredo de vida,
de noite é uma andorinha pequenina
e o escuro não é só vasto,
é longo e lento na travessia.
Talvez Ísis tenha vindo saber
se eu lhe abriria o caminho para o sol
lá do fundo do susto que apanhei
quando a aflição dela foi a minha.