15 de agosto de 2014

Visão, tenha duas: Quem nos roubou o prazer?


Meia-Noite na capa Visão. O Manuel S. Fonseca e eu vá de gastar os pixels ao tio Rubens. Mas já sabe, lailailai e tal está no olhar de quem vê. E o querido leitor que lailailai viu?



“Visão, tenha duas”


Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.
QUEM NOS ROUBOU O PRAZER?
Quem/ nos roubou/ o prazer/ de existir?// Porque/ nos roubamos/ o prazer/ de existir? perguntou aqui há uma dezena de anos Adília Lopes.
Lembrei-me logo de Adília Lopes quando vi Rubens aqui plasmado, montado e opulento, cheio até às coxas do cavalo, transbordante no seio.
Engordei 43 kg
de 86 para cá
agora
gorda como estou
já caibo
num quadro de Rubens
(segundo o Osório Mateus
no meu caso
era mais fácil
entrar para o quadro
de um pintor
que para o quadro
de uma empresa).
O prazer anda na cama com a estética de um lado e com a ética do outro. É um triângulo amoroso clássico: ao meio, bem aconchegado entre as duas faces tão diferentes da bela mesma moeda deita-se o homem e abraça as duas - sim, sem dramas, onde diz homem pode ler mulher ou o que lhe der na telha de géneros fluídos, quero lá saber.
Mas antes. Faz amanhã uma semana que estive de esplanada com a minha mãe. A prestar atenção. As crianças engordaram muito. Os adolescentes. Mesmo os pés transbordam das sandálias e as mãos são papudas. E por outro lado, mas pelo buraco da agulha, o oposto disto: miúdas escanzeladas. Os corpos extremam-se em excesso e falta de peso, sendo que o excesso é penalizado e a falta recompensada.
Se à gordura atribuímos o valor da decadência, da doença e da morte, tal não se passa com a magreza. Notou como o magro, o Estica, o par do Bucha, desapareceu do anedotário? A Olívia Palito é, desde os anos sessenta, setenta, e na sua puberdade envelhecida com suplementos de silicone nas mamas e lábios, um dos anjos de Victoria´s Secret. Não me entenda mal, eu gosto do estereótipo destas meninas-mulheres de fantasia, tão bem despidinhas, umas bonequinhas. Para brincar. As medidas de uma mulher são outras. Ora, vá lá ver o site para encomendar umas gracinhas para confirmar que para a tia Vitória isto não é segredo nenhum.
O referente da juventude e da magreza aproxima o corpo feminino do corpo masculino. Já reparou como os pré-adolescentes se assemelham? As meninas mal têm maminhas e ancas, os meninos ainda não alargaram. Este é o corpo das passerelles. Então, pergunto, que desejo sexual é nosso? Na idade adulta, este corpo, e o desejo de o possuir para si mesmo, ou de se apossar dele, não será narcísico? Se além de si mesmo, só contempla Eco, o eco de si mesmo, cristalizado, ainda mal pubescente... Incapaz de sair de si, não é um corpo de prazer. É um corpo de sacrifício à fantasia - e é aqui que começa o pesadelo: fonte da juventude, ausência doença e promessa de imortalidade.
A opulenta menina de pequena maminha, hoje com menos do que uma copa C, e um metro e setenta para cinquenta quilos de peso, não serviria a Rubens de modelo, ela que segura os louros enquanto sopra ao ouvido do rei memento mori para conter o eu insuflado como um balão pela glória do nascimento e das obras.
Há quanto tempo ninguém nos sussurra ao ouvido lembra-te de que morrerás?
O prazer deslocou-se para o corpo ao espelho ou para corpo na montra real e virtual - como nas fantasias de ser e ter?
E a alegria do corpo, o prazer lírico do corpo, o prazer lúbrico do corpo enquanto a morte, que pode esperar, ronda? Porque nos roubamos o prazer?