11 de julho de 2014

Visão, tenha duas: Perguntas e respostas e o que não se sabe nem saberá jamais


Meia-noite e um minuto e cá estamos, de férias ao natural, o Manuel S. Fonseca e eu, a acampar, Tristes, na capa da Visão. Ele montou a tenda onde lhe apeteceu. Eu também. Uma mulher e um homem acampam na mesma capa. Será que acampam em lugares diferentes? Tragam uma tenda também. A ver se fazemos um acampamento.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

VISÃO, TENHA DUAS: PERGUNTAS E RESPOSTAS E O QUE NÃO SE SABE NEM SABERÁ JAMAIS
Também acampei. Uma vez. Umazinha só e mesmo assim consegui queimar as esperanças que a minha irmã tinha de acampar um dia quando fosse crescida.
A minha avó era feroz ainda que nela só se visse a civilização. Não era a sua palavra preferida. Posso? Não. Mas nem disse o quê… Nem vale a pena dizer, não é porque a sua amiga vai que pode ir, não sou avó da sua amiga, sou sua avó. O não não era uma negação, era uma condição apriorística a qualquer requerimento feito. O porquê nem se punha, era invariavelmente porque sim, porque eu disse. E agora levanto o acampamento para uma nota, vá, psico-filosófica.
Já reparou que as justificações que pedimos são inúteis em tudo o que da vida é importante? Porque morreu? Porque acaba ou começa o amor? Porque se nasce para isto e não para aquilo, e neste país ou noutro? Não há resposta fora de nós. Suponho que deva isto à minha avó, isto é não precisar de explicações para circunstâncias e actos, vê-los como a explicação de si-mesmos, da intenção ao significado. Creio que o disse anteriormente, mas repito porque as repetições, além de um lugar feliz, também são uma das regras fundamentais da natureza: não há vida fora do Verbo, não há ser fora do fazer. O que não se sabe, o que não se saberá jamais é a amplitude de uma acção, teoria do caos e da ordem. Enfim, neta da minha avó, sou explicativa e sim é a minha palavra preferida. De volta à tenda.
Depois do meu primeiro amor, tive o meu primeiro namorado a sério, com quem inclusive me casei e de quem exclusive me divorciei. E ele vamos acampar no Verão. E eu nem ai nem ui no Planeta do Não. Ora, um dia, íamos na rua, ele e eu quando, zás, damos de caras com a minha avó na esplanada do café. Apresentações feitas, conversa, e lailailai para cá, e lailailai para lá, e caem todos os santos de todos os altares: da próxima vez que vier, fica lá em casa. Lá em casa? Fiquei perplexa, mesmo chocada: uma experiência de LSD, porém sem tomar ácido algum. Fui, portanto, acampar, sem sequer ter de pedir porque ele, lá em casa, umas semanas depois, estávamos a pensar ir acampar no Verão.
Acampar foi uma grande seca: de manhã fazia um calor das arábias e à noite os campistas vizinhos que nem fazia gosto em conhecer, tocavam viola, djembe, cantavam e bebiam até cair à volta de uma fogueira, fumavam as Marias e enrolavam-se com as Joanas, ou vice-versa. Mais valia que também tocasse viola e djembe e tivesse começado rapidamente a fumar e a beber porque sóbria, santa paciência! E um desatino de pó com comichão nos olhos, nos ouvidos, na garganta, e fila para os chuveiros e para lavar loiça. Mas entrar no mar noite dentro, tudo tão preto, fresco, água e céu de estrelas cristalinas… E houve aquele mar de corpos fosforescentes, ou melhor, o contorno dos movimentos era uma linha luminosa: explicaram-me aquela alquimia marinha com algas mas o que me ficou na retina, até hoje, foi a coreografia da luz.
Ora, eu tive durante anos uma mania. Todos os verões lia Os Maias. Todos os invernos também – aquilo das repetições, lembra-se? Duas vezes por ano. Não era só com os Maias, era um bloco de livros e filmes e música e pintura e dança, exaustivamente repetido a ritmo certo, todavia diferente entre si. Coisas para saber de cor. Lá em casa toda a gente estava a par disto. Era a minha chaladice. Mas a partir de um certo ponto ninguém me fez mais reparos, afinal, também a loiça é invariavelmente lavada logo após cada refeição, e os dentinhos, e camas fazem-se diariamente para se desfazerem nocturnamente, tiram-se férias nas mesmas datas, abre-se e fecha-se o ano escolar com regularidades de relógio suiço, e vai-se para aqui ou para ali quase sempre pelo mesmo caminho e etc.
Era noite. Estava sozinha. Namorado não sei onde. Queria ler. Os Maias - estava na estação deles. Nunca percebi engenharias, o pensamento não me cresce nessa direcção, na verdade, nem pensa tais assuntos, de todo, se dependêssemos de mim viveríamos em grutas ou ao ar livre, não haveria pontes nem estradas e quase de certeza ter-nos-íamos extinguido de fome e doenças. Sou uma impraticável. Talvez por isso ame tanto esse outro lado da vida, desde a arquitectura à física nunca esquecendo o prodígio civilizacional da água canalizada. Concluindo.
Era noite. Estava sozinha. Namorado não sei onde. Queria ler. Os Maias - estava na estação deles. Tirei os ovos da sua embalagem de plástico. Cortei a parte superior correspondente a cada ovo. Em cada uma, pus uma vela. Seis velas. Um pequenino e lindo candelabro de mesa-de-cabeceira, isto é, livros de cabeceira, quero dizer, ao lado do saco de cama onde me enfiei.
Nunca tinha adormecido a ler. Nem voltei a adormecer a ler. Acordei com os gritos de fora e dentro de uma chama. Não consegui ir a lado algum porque uma parte do saco de cama derreteu na minha perna direita. O meu namorado entrou no fogo e tirou-me de lá. Sobraram ferros retorcidos e nem sei quantos tratamentos cruéis no hospital para ficarmos como se nada tivesse sido.
Agora que penso nisto, vejo que, também nós, ele e eu, acabámos como começámos, sem marcas, como se nada tivesse sido. E no entanto salvou-me a vida.