4 de julho de 2014

Visão, tenha duas: Não me toques que me desafinas



Meia-noite e um minuto e cá esta­mos, numa alta farra, o Manuel S. Fonseca e eu, a dançar, Tris­tes, para a capa da Visão. Ele dançou o que lhe veio à cabeça. Eu tam­bém. Uma mulher e um homem dançam para a mesma capa. Será que dançam coi­sas dife­ren­tes? Dancem também.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

NÃO ME TOQUES QUE ME DESAFINAS
Tudo dança. É o regresso à adolescência dos slows. Tudo quer ser grande, independente e sozinho, mas mal se apanha fora do ninho, o que quer é fazê-lo, e enchê-lo – mesmo quando, serial lover, é com uma pessoa de cada vez. Bichos, de facto, solitários há poucos, é uma bicheza rara a gente sem par: qualquer feio, qualquer má, quer, gosta e consegue casar.
É, só pode ser, o regresso à adolescência dos slows. Cresce-se e, afinal, quer tudo andar agarrado na mesma, a fingir que faz cardio, nada de dar o braço a torcer, não gosto de ser sozinho, quero é ninho: ele diz que produz endorfinas, ela ai que oxitocina tão boa, e que é higiénia desportivo-dançante com efeito tonificante na anatomia. Pois sim… é alegria expectante. Salsa. Danças de salão. O diabo a quatro. Sossega leão! À adolescência ninguém volta porque de lá ninguém sai: mas também não se sai da infância nem dos vintes nem dos quarentas: tem-se tudo, a cada instante. É assim.
A kizomba, confesso, não me aquece nem me arrefece, mas morna, morna já dancei e até dançaria, tem um embalo de banho-maria que não descamba em sangria: tudo como deve ser e uma santa nostalgia só Deus sabe de quê.
É triste dançar sozinho quando é dança de dançar agarradinho. Há sempre a salvação da dança de ginásio, zumba ou go-go, ou das aulas regulares e dos workshops de um, dois, um, dois, três, cha-cha-cha entre perfeitos desconhecidos mesmo à mão para conhecer, e apertada nos meus braços, e a ensaiar bem os passos, não vais sair a correr. Pois não? E mais: se os dois gostam de dançar já tem por onde começar a… conversar. É meio caminho andado. É um código postal: fulano ou fulana de tal dança kizomba ou qualquer outra bomba da coordenação afecto-motora. A coisa promete. Se promete, cumpra.
A verdade é uma só e é pequenina: tudo quer pertencer a algo e, muito mais importante, a alguém. É da natureza humana não dormir sozinha na cama.