20 de junho de 2014

Visão, tenha duas: para começar, quero ser filha da minha mãe e do meu pai


Já sabem que todas as semanas, o Manuel S. Fonseca e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

PARA COMEÇAR, QUERO SER FILHA DA MINHA MÃE E DO MEU PAI


Quando éramos pequeninas perguntavam-nos: então, a menina é filha de quem? Outra pergunta comum era: o que quer ser quando for grande? A resposta que ainda hoje recordo foi dada à segunda pergunta por uma colega minha de colégio: quando crescer quero ser filha da minha mãe. Todos queremos. A nossa mãe é a melhor do mundo e tão bom como ela só o nosso pai. Se tivermos sorte, muita sorte, isto acontece à grande sombra tutelar de frondosos avós.
O que é ser filho de pai desconhecido quando se conhece perfeitamente o pai? Não sei. Posso imaginar, mas não posso saber. O que é recusar a paternidade a um filho sabendo até ao osso que é filho? Até posso perceber as razões conjugais, paterno-filiais, económicas e sociais da negação, mas não posso saber.
Tudo de ser pai ou mãe me é estranho excepto na qualidade de filha, a única que exerci e exerço. Não sei o que é ter um filho, não sei o que é estar grávida, e de repente, uma criança, uma vida, uma pessoa inteira em si mesma. Posso compreender, mas não posso saber. Se quiser ser purista até posso acrescentar que sim, é verdade, ao longo do dia somos pais e mães tantas vezes, e logo de pequeninos com as nossas bonecas, chorões, irmãos, amigos, e até mesmo com os pais ensaiamos esse exercício.
Creio que esta questão não tem que ver com a inteireza da pessoa, é-se inteiro mesmo sem história de presépio que possa contar-se: a família pode reflectir-nos ou não. E nós a ela. Pode até ser um lugar de fuga para outro eu florescer – ser-se mãe e pai de si-mesmo. Também se negam pais. E nem é preciso ir tão longe nos actos. Negam-se até várias vezes por dia: separamo-nos e construímo-nos também pelas diferenças que elegemos. Não está em causa o inquestionável valor da pessoa. O está em causa, afinal?
Como se levanta uma comunidade, uma empresa, à imagem do quê, de quem? Da família e das monarquias. Sabêmo-lo de cor nesta Europa em que o poder tal como as grandes marcas, e fora da Europa, as marcas europeias, privilegiam um modelo claramente monárquico, dinástico, de corte, representado na família e nas alianças inter-familiares. Porquê? O que é a família se não for um útero alargado, o lugar da segurança, das inter-dependências e independências medidas pela trela extensora? Porém, comunidade ou empresa, são sempre pessoas que aprendem a ser pessoas por mimetismo e dissemelhança. É um modelo. Corresponde a uma necessidade. Há outros modelos. Porque há outras necessidades - por exemplo: sou republicana, e convicta, por isso prefiro as afinidades electivas, salvaguardando a família para relações de outra expressão. Todavia a primeira aprendizagem é aquela, a da dinâmica eu sou/faço como tu-eu sou/faço diferente de ti. Pode-se, ou não, ir além dela. Como em tudo: a satisfação de uma necessidade básica e funcional tem de estar garantida antes de qualquer outra.
Penso que uma questão deste fundo da natureza humana, do mais fundo da nossa natureza, deste fundo onde se replicam tanto quanto se reduzem à escala do eu as grandes questões quem sou, de onde venho, para onde vou, portanto, a procura de significado e sentido, tem de ser tratada legalmente, e de base.
O que quero dizer? Tão simplesmente que à partida a lei deve conceder-nos igualdade de direitos. Não diferença. A diferença deve constituir a excepção seja por mérito ou por demérito. Se não há um pai, ou uma mãe, identificados ou identificáveis, não cabe, não deve caber ao filho, nem a um dos progenitores, a confirmação ou a averiguação da paternidade ou maternidade em falta. Mas sim à lei. Logo. Imediata e automaticamente. O direito a uma mãe, o direito a um pai são do superior interesse de qualquer criança. Uma comunidade que não saiba isto, não merece os seus filhos.