13 de junho de 2014

Visão, tenha duas: o homem de cabelos brancos, o rapaz de calções, por Manuel S. Fonseca


Já sabem que todas as semanas, a Eugénia e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.


O HOMEM DE CABELOS BRANCOS, O RAPAZ DE CALÇÕES
Do canto supe­rior direito da capa da Visão, Frei­tas do Ama­ral olha para Cris­ti­ano Ronaldo. “Nasci, como tu, a chei­rar o mar,” pensa. “Que dife­rença há, afi­nal, entre a Póvoa de Var­zim e Santo Antó­nio do Fun­chal? Não há nada que tenhas feito que me seja estra­nho”, sussurra-lhe.
O homem que está no canto direito da revista Visão, num peque­nino selo foto­grá­fico, um cromo quase, olha para baixo, para o per­feito atleta com a cami­sola das qui­nas, como quem olha para o colosso de Rodes. E pensa que a radi­osa máquina de mús­cu­los, esse corpo enxuto, rápido e efi­caz, é que sabe pouco. “Sabes lá o que era nes­ses anos de chumbo do pro­fes­sor Sala­zar (anda­vas tu a sal­tar de galác­tica nuvem para nuvem), licenciar-se um tipo na vetusta Facul­dade de Direito em Ciên­cias Político-Económicas e três anos depois, com os mais ino­cen­tes 26 anos, arran­car o dou­to­ra­mento em Ciên­cias Político-Jurídicas?!”
O homem de cabe­los bran­cos, rosto maciço, um travo amargo e baixo no olhar, sabe que fez o que era certo e era pre­ciso ser feito e, no entanto, há um lín­gua de silên­cio que o invade, um gomo de res­sen­ti­mento que o aniquila.
Tal­vez não acre­di­tes – e já é uma noc­turna maneira deste homem fechado num peque­nino qua­dro do canto supe­rior direito de uma revista, falar con­sigo mesmo –, mas era bem capaz de tro­car o meu reino, por um dos teus peque­nos sal­tos de cavalo. Os livros que li e os livros que escrevi, as minhas bata­lhas cons­ti­tu­ci­o­nais, as vitó­rias e as der­ro­tas polí­ti­cas, a Ordem Mili­tar de Sant’iago de Espada, a Ordem da Estrela Branca da Estó­nia, a pompa e cir­cuns­tân­cia dos meus palá­cios, o cal­ci­nado silên­cio dos meus ban­que­tes, a rede maligna dos com­pro­mis­sos, dei­xava tudo, de tudo abdi­ca­ria, pela ale­gria física de um golo, pela explo­são ful­mi­nante de um sprint, pela glo­ri­osa irre­ve­rên­cia de um dos teus slaloms.
Sei tudo sobre o con­ceito e natu­reza do recurso hie­rár­quico (que tu olim­pi­ca­mente igno­ras), conheço Maqui­a­vel e Erasmo, as linhas essen­ci­ais da reforma do con­ten­ci­oso admi­nis­tra­tivo e só me vem magoar-me a cabeça o verso do poeta: “Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.” O que eu que­ria, esse meu per­dido Rose­bud da Póvoa de Var­zim, era um golo, a des-ideológica mul­ti­dão num está­dio, o mer­gu­lho na relva, o embru­lhado e sin­cero abraço dos outros joga­do­res, a cabeça leve, o cora­ção puro.
Da pequena janela, canto supe­rior direito da capa de uma revista, o homem de cabe­los bran­cos con­fessa a um rapaz enxuto: “Tive tanto no meu cére­bro, tão pouco nos meus pulmões.”