27 de junho de 2014

Visão, tenha duas: Ilhas

visao hoje

Meia-noite e um minuto e cá esta­mos, na ilha deserta,
O Manuel S. Fonseca e eu, a olhar, Tris­tes, para a capa da Visão. Ele escre­veu o que lhe veio à cabeça. Eu tam­bém. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Expe­ri­men­tem ler.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.
ILHAS
No outro dia disseram-me o que se costuma dizer: nenhum homem é uma ilha. Não tenho essa certeza. Acabados de nascer somos uma península ligada ao continente mãe. Mas depois de cortado o cordão, não somos uma pequenina ilha em regime de protectorado? E logo a seguir não vamos reconhecendo o nosso arquipélago? E não chega aquela hora em que entramos na vida para inventar uma baía toda particular? Somos uma ilha, sim, com todos os acidentes e alegrias da geografia: uma depressão, se estamos abaixo do nível do mar. E um canhão se entre montanhas que nos cortam o ar. E um vulcão em puríssima erupção quem é que se atreve a dizer que não é, nunca foi, jamais será na ilha do eu? Eu tenho o meu. Uma restinga tão estreita, a um palmo de areia, a um passo na areia, à distância da mão na mão, quem é que não quer ser?
É uma viagem do caraças um dia na ilha do mundo, todos os dias. A Terra é só uma ilha no grande mar sideral, não é?
No outro dia perguntaram-me o que costumam perguntar: se só pudesse levar uma coisa para uma ilha deserta, o que seria? Um barco, pois claro, se é uma nave espacial...
No outro dia preenchi um questionário para saber qual era o meu ideal de ilha para férias: tanto quadradinho cheio de cruzes inúteis, sou uma inconclusão insular. Se me tivessem perguntado teria respondido: o meu tipo de ilha és tu, para viver ou passear. E para escrever há todo o mar.
Ilhas nós todos na união das águas.