12 de junho de 2014

Todas as minhas portas estão abertas

CONTROLDESINVESTE
Vamos falar de trabalho. Eu trabalho: leio, investigo, penso, escrevo, corrijo, reescrevo. Vivo entre o erro e outro erro melhor, na folha branca, a tentar chegar à boa palavra, à espera que por mim queira fluir, florir no acerto nas teclas. Durante 14 anos bati a todas as portas de todas as revistas, jornais, editoras, agências de publicidade – não recordo o nome de uma empresa onde escreviam telenovelas, mas a essa porta bati também.
Do muito que me chocou, nada me chocou tanto quanto a falta de uma resposta. A dignidade de um não. Não, não queremos. Diante do não podemos desenvolver uma estratégia para chegar ao sim. Refazer.
Só silêncio e aleatoriedade - e diante disto faz-se o quê a não ser resistir e insistir na expectativa de que o silêncio se abra e a aleatoriedade nos contemple? Nada me chocou tanto como não conseguir sequer uma entrevista numa revista, num jornal, numa editora, numa agência de publicidade, numa fábrica de telenovelas. Nem o mérito, nem a falta de mérito foram critérios.
Tinha a esperança mais canónica, uma esperança bíblica construída em cima do versículo de Lucas, bate e abrir-se-á. Perdia-a. E parei. Nem a mais uma porta. Foi quando compreendi o significado de religião. Foi quando percebi a diferença entre a esperança e a fé. A fé é uma certeza substancial. Não do que se quer, ou tem, mas de quem se é, de que matéria se é feito. E soube quem era. A própria Voz da Criação fala em mim: *And I say unto you, ask, and it shall be given you; seek, and ye shall find; knock, and it shall be opened unto you. For every one that asketh receiveth; and he that seeketh findeth; and to him that knocketh it shall be opened. Todas as minhas portas estão abertas.
Leitora que sempre fui, ouvinte, observadora, tenho assistido às movimentações do mundo dito cultural, artístico, editorial e dos seus agentes. Vi, entre o muito que vi, o efeito da maçonaria numa carreira para-poético-literária. E vi o efeito das relações de proximidade social, sexual, político-partidária nas instituições e pessoas culturais. Também encontrei valor, grande valor, extraordinário e inspirador. E todos os dias agradeço e pela gente morta, guias vivos na obra que deixaram.
E leitora que sempre fui, ouvinte, observadora das acções dos homens e dos discursos dos homens de decisão, vi a falta de coincidência entre umas e outros. Se um homem não é o que faz, se a sua palavra não tem o valor de uma acção, o que raio é um homem? Há quem remeta a justificação para tal décalage comportamental para a economia. Penso que não a encontraremos aí. Penso que tal justificação estará na ideia de pessoa e de comunidade que escolhemos ser.
Leitora que sempre fui, ouvinte, observadora, mas do lado de cá das portas fechadas, previa sem qualquer vidência, a queda: Alexandre Magno e o Cão, Diógenes, são um par antitético, um dos pares essenciais, dois dos pilares fundamentais de sustentação. Se um cai, o outro cairá, se não hoje, amanhã. Porque são duas manifestações de uma só realidade.
Sem filosofia não há política. Sem cultura não há erudição. E sem política, erudição, e sem criatividade, talento, técnica, não há arte. Sem diferença morre-se de consanguinidade e de homogeneidade. Assim fazem-se escravos em lugar de Homens.
Soube do despedimento colectivo na Controlinveste. 140 postos de trabalho afectam mais do que 140 profissionais, são 140 famílias. Gente que vivia directa ou indirectamente neste mundo feito de letras e nem por isso menos denso ou mais subtil. Ama-se da mesma forma, gasta-se água e luz e gás. Vai-se ao médico. Tem-se despesas fixas e flutuantes como as alegrias e as tristezas.
Só quem está do lado de cá sabe o que é estar do lado de cá. O lado de cá, do que quer que seja, é para muito poucos. Não há consolo e a esperança cansa-se. Só a certeza levanta os dias do chão.
Eu escrevo. Poesia, ensaio, e crónica. Agora um romance. Já publiquei e mais publicarei - ou não. Já tive um carro. Já tive uma casa. Mas porque escrevo e escreverei, já não tenho. Não interessa. Nem interessa que não interesse. Não peço nem a Alexandre que se desvie porque não é ele quem me faz sombra. Ponho tudo quanto tenho e sou nas palavras que escrevo: pelas palavras se morre, pelas palavras se vive. E todas as minhas portas estão abertas.

*Luke 11:9-10
King James Version (KJV)