29 de junho de 2014

O MEU SOBRINHO E EU E EU E O MEU SOBRINHO

O MEU SOBRINHO E EU E EU E O MEU SOBRINHO

i.

VERNIZ COR DE SANGUE DO NARIZ
Mal comparada, a minha relação com a manicure é tal qual a mesma que mantenho com os sapatos. Como usava botas ortopédicas sonhava com sapatos de verniz, sandálias, socas, saltos… Como roía as unhas queria ter umas lindas mãos.

Quando comecei a fazer manicure era só o natural. Depois passei a fazer manicure francesa que é, digamos, um empurrãozinho dissimulado à naturalidade. Quando a francesa caiu em graça, caiu-me em desgraça, isto é, tive um ataque de Carolina do Mónaco e comecei a pintar as unhas de encarnado. Não é laranja, não é salmão, não é tomate, não é rosa, não é o diabo a quatro, é encarnado. Não há cá azuis, nem verdes, nem brancos, nem pretos nem roxos nem castanhos, que não quero unhas cor de morto nem de doente nem de qualquer cor adolescente, não ponho brilhantes, nem flores, nem desenhos de espécie alguma, nem bicos de águia, garras de gato de palco, nem redondas, nem quadradas. Curtas. Encarnadas. Monótonos pezinhos do mesmo encarnado. Um tom acima, abaixo ou ao lado, mas encarnado.

Ora, os meus sobrinhos estão a passar o fim-de-semana comigo. Ontem, estava a ler um livro com o meu sobrinho mais velho quando, de repente: 
- Uau, Tatia, que lindas unhas, cor de sangue do nariz!


ii

BORBOLETAS E DINOSSAUROS

Do meu sobrinho mais velho já contei. A calma em figura de gente. Cheio de mistérios que nem ele sabe nem nós. De vez em quando apanha toda a gente desprevenida. Ganhou um campeonato de canto – ninguém sabia que ele cantava. E de conto escrito e de matemática e de desenho. Azarucho, descobriu-se também que, às vezes, diz: não posso fazer esse trabalho, estou muito cansado, preciso de dormir. Ou não percebo esse trabalho, não posso fazê-lo. E não faz. Ponto. Apesar de muito alto, é escanzelado, e vá, fracote. E usa botas ortopédicas portanto também não corre por aí além, e não o escolhem para as equipas de futebol.

Apaixonou-se. É a menina que todos os meninos querem namorar. Perguntei-lhe porquê esperando uma trivialidade, é a mais bonita, ou a melhor aluna. Não. Não é a mais bonita, mas é muito bonita. Nem é a melhor aluna, mas é muito boa aluna. Nem tem um feitio, ao que parece, muito fácil. Porque é a melhor. A melhor quê? A melhor, Tatia. Enfim, namoram. Ela também o escolheu. 

Ora, o macho alfa foi-lhe disputar a namorada – namorar, nesse dia, era basicamente ir apanhar borboletas porque ela queria. O macho alfa afirmou que era ele quem ia apanhar borboletas com ela. O meu sobrinho, que já apanhou do macho alfa e do beta e de mais umas quantas letras do alfabeto, passou-se da cabeça e quem apanhou foi o macho alfa. Resumido. Ele foi apanhar borboletas com ela, os dois felizes da vida e a minha irmã foi chamada ao colégio. Quando lhe perguntei o que se tinha passado respondeu-me: 
- Tatia, se eu encontrasse no Polo Norte um TRex congelado poderia fazê-lo em mil bocadinhos de gelo – não fazia porque gosto de dinossauros.
- Isso quer dizer o quê?, que o seu colega era mais forte, percebo, que lhe poderia ter dado mais umas quantas e não deu porque gosta dele também percebo, mas o seu colega não estava congelado...
- Era como se estivesse porque eu gosto dela e ela de mim.
- E como sabe que ela gosta de si, se mesmo agora contou que lhe perguntou e ela foi embora a correr?
- Porque ela se foi embora a correr!
- Boa!
- E porque quando quer apanhar borboletas é comigo, e quando eu vou pensar*, à sombra, no recreio, ela vem deitar-se a olhar para o céu ao meu lado.



* o meu sobrinho dormita um bocadinho no recreio do almoço, chama-lhe pensar de olhos fechados - escolas cruéis! E bela siesta?! Não podem ser crescidos quando forem crescidos? Que nervos...