30 de maio de 2014

Visão, tenha duas: O estrangeiro é o que se entrega, frágil, indefeso, por Manuel S. Fonseca


Olhar é Triste. Eugé­nia de Vas­con­cel­los e Manuel S. Fon­seca apos­ta­ram escre­ver um post sema­nal a par­tir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Neste seu EeT, no pri­meiro minuto de cada sexta-feira,   
“Visão, tenha duas”
Ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui e o outro osso também.

VISÃO, TENHA DUAS
O ESTRANGEIRO É O QUE SE ENTREGA, FRÁGIL, INDEFESO


Gosto dos estran­gei­ros. Estou a olhar para a capa da Visão de 29 de Maio e ainda gosto mais dos estran­gei­ros. Gosto do estran­geiro, do homem e da mulher que estão sós, que não têm nin­guém que lhes fale a lín­gua. Gosto do ame­ri­cano de Beja, do fran­cês de Alje­zur, da impla­cá­vel alemã do meu pri­meiro emprego num hotel do Lobito, do zai­rense da Caparica.
O estran­geiro é o que esco­lheu (mesmo quando parece que não esco­lheu) car­re­gar a nossa cruz, o nosso céu, terra e mar, a nossa amar­gura e a nossa inco­mu­ni­cá­vel ale­gria. O por­tu­guês que anda pelas ruas do Porto ou Lis­boa pode muito bem dizer “I’m a stran­ger here myself”, como se fosse o herói auto­com­pla­cente de “Johnny Gui­tar”. Esse é um por­tu­guês da treta, con­versa de café. O estran­geiro não quer ser “stran­ger”, quer é vaguear as noi­tes para ouvir o fado de Por­tu­gal, e nele, e por ele, se irma­nar con­nosco. O estran­geiro é o que se entrega, frá­gil, inde­feso, à des­co­berta. Quer descobrir-se a si mesmo em nós.
O estran­geiro não tem rede – ou tem, quando muito, pouca rede. Honra-nos com essa desar­mante vul­ne­ra­bi­li­dade. Se qui­sés­se­mos, pode­ría­mos matar o estran­geiro, bater-lhe, dar-lhe um tiro, estrangulá-lo. Só um cobarde o faria, por­que o estran­geiro é o que se nos con­fia, o que nos dá o seu amor antes de saber se o ire­mos amar.
O estran­geiro é por­tu­guês por­que os por­tu­gue­ses, no seu melhor, sem­pre foram estran­gei­ros. Nunca a um ver­da­deiro por­tu­guês lhe bas­tou Por­tu­gal para ser o por­tu­guês que que­ria ser. O por­tu­guês que quer ser por­tu­guês vai ser Fer­não Men­des Pinto para o Oce­ano Pací­fico, Wen­ces­lau no Japão. Vai ser, a ferro e fogo, Afonso de Albu­quer­que em Ormuz. Vai plan­tar café em Angola, bater chapa na Ale­ma­nha, ser por­teira em Paris ou padeiro de Manaus a Santa Cata­rina. O por­tu­guês que tem ânsias de ser por­tu­guês, quer mar e mar, quer ir sem saber se vai vol­tar. Parece que Fer­nando Pes­soa se can­tou como o via­jante que nunca saía do cais. Bastar-lhe o cais é, digo eu, uma forma de abs­ten­ção – que pena que ele tenha desis­tido de ser por­tu­guês. (E é men­tira, por­que o enge­nheiro Cam­pos andou em bolan­das de Glas­gow a Lon­dres, o lati­nista Ricardo Reis se bal­deou para o Bra­sil, já para não falar de cer­tos ves­tí­gios ado­les­cen­tes de Durban.)
Em Por­tu­gal, não há nada mais por­tu­guês do que o estran­geiro em sua casa, com o ridí­culo chihu­ahua ao colo.